Formada em Direito e inserida na construção civil há mais de seis anos, Lis Oliveira uniu conhecimento jurídico e vivência prática para atuar na prevenção de multas, interdições e passivos trabalhistas antes que o problema chegue ao Judiciário. Hoje, transforma essa experiência em conteúdo acessível para empresários e trabalhadores do setor.
Antes de construir a carreira, veio a vontade
Muito antes de entrar em uma obra, Lis Oliveira já sabia que queria construir uma vida diferente da que conhecia. Criada mais pelos padrinhos do que pelos pais, ela passou a infância em uma pequena cidade do Paraná, em meio a uma relação familiar difícil e ao desejo de encontrar outro caminho.
O trabalho também chegou cedo. Na mercearia da madrinha, Lis aprendeu tarefas do dia a dia, desenvolveu o gosto pela cozinha e começou a entender, ainda jovem, o valor da independência. A vontade de mudar de realidade, que nasceu naquela época, acabou acompanhando as escolhas que vieram depois.
“Meu sonho sempre foi sair daquele lugar e viver uma vida completamente diferente daquela em que eu fui criada. Acho que isso é a base do que eu sou hoje”.

O Direito encontrou um negócio em crescimento
A vontade de construir outra vida logo encontrou uma forma prática de aparecer: o trabalho. Enquanto cursava Direito e estagiava em um fórum no Paraná, Lis também vendia roupas para complementar a renda. Em algumas ocasiões, viajava com o então namorado, hoje marido, até São Paulo para comprar mercadorias.
Foi por meio dele que surgiu sua entrada na construção civil. Ele já atuava com locação de equipamentos e precisava de ajuda na parte documental enquanto o negócio crescia. Lis começou auxiliando nessa área e, com o tempo, passou a assumir novas responsabilidades, deixando o estágio para se dedicar mais à rotina da empresa.
A experiência também mudou a forma como ela aplicava o que aprendia. À medida que avançava na formação em Direito e buscava novos cursos, Lis incorporava esse conhecimento à realidade da construção civil e ampliava sua participação nos processos do dia a dia.
“Eu sempre tive esse espírito empreendedor. Desde cedo, vendia alguma coisa para fazer uma renda extra”.

Quando o Direito chegou ao canteiro
O crescimento da empresa levou Lis a descobrir que o conhecimento jurídico precisava acompanhar a rotina de perto. Aos poucos, sua atuação passou a envolver contratos, ordens de serviço, documentação, normas regulamentadoras e processos internos, além das rotinas de recursos humanos.
Foi nesse contato com a realidade da obra que ganhou forma o trabalho que ela hoje chama de direito preventivo. A proposta é identificar falhas, organizar documentos e acompanhar o cumprimento das regras antes que elas se transformem em ações trabalhistas, multas ou interdições. Na construção civil, esse trabalho se relaciona a um conjunto específico de exigências de segurança e saúde, incluindo a gestão de riscos nos canteiros.
“Tenho que verificar se o empregador está fazendo a parte dele e se quem recebeu essa responsabilidade também está cumprindo o que a norma prevê”.

A prevenção ganhou outro peso
A prevenção ganhou outro significado para Lis quando, mesmo com a documentação, os EPIs e os demais cuidados em dia, a empresa enfrentou dois acidentes graves. Os dois acidentes a afetaram profundamente. Depois do segundo, Lis chegou a se afastar da empresa, acreditando que aquele trabalho não era para ela.
Neste ano, ela retomou sua atuação com uma gestão baseada no conhecimento jurídico e passou a ampliar esse trabalho para mais pessoas. A experiência também mudou sua forma de enxergar o próprio trabalho, que deixou de estar restrito à organização de documentos e passou a envolver uma atuação mais próxima da realidade das empresas e das obras.
“Por mais que tenham sido processos dolorosos, eles me transformaram e viraram um propósito para eu prevenir que esses acidentes aconteçam de novo”.

O jurídico de botina e capacete
Depois dos acidentes, estar perto da obra deixou de ser apenas parte da rotina. Virou método. Lis passou a acompanhar canteiros, conversar com funcionários, observar a aplicação das normas e verificar se os procedimentos adotados estavam, de fato, sendo cumpridos, tanto pela empresa que a contratou quanto pelas empresas terceirizadas responsáveis pelos funcionários que atuam na obra.
É nessa combinação que ela identifica o seu principal diferencial: reunir a formação jurídica com a experiência prática da construção civil. Ela não fala sobre a realidade do canteiro apenas a partir do escritório. Faz questão de conhecer o ambiente, acompanhar os processos e entender os dois lados da relação de trabalho.
“Você quase nunca vê um advogado na construção civil, ou alguém da área jurídica, colocando a botina e o capacete e andando pela obra.”

Do canteiro para as redes
Foi também dessa experiência prática que nasceu uma segunda frente de atuação: transformar conhecimento técnico em informação que empresários e trabalhadores consigam entender. Lis começou a abrir o perfil do Instagram que antes mantinha privado e passou a publicar conteúdos sobre documentação, prevenção e normas, evitando o excesso de termos jurídicos, o que poderia dificultar a compreensão. A proposta é tornar o conteúdo didático e acessível, para que todos consigam entender e aplicar as informações no dia a dia.
Entre os conteúdos está um checklist com dez pontos que, segundo ela, devem ser observados nas obras para evitar interdições. A repercussão cresceu especialmente depois de um vídeo sobre a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1.
A nova redação do capítulo 1.5 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Lis percebeu que muitos empresários receberam a mudança como mais uma obrigação e decidiu apresentar o tema também pelo lado da prevenção, incluindo a importância de mecanismos para identificar e enfrentar situações de risco no ambiente de trabalho.
“Recebi mensagens de várias pessoas dizendo que era mais uma coisa para dar trabalho. Mas, principalmente os empresários, precisam olhar para esse tema pelo lado da prevenção. O canal de denúncias ajuda as mulheres e também os homens a prevenir esses riscos”.

Crescer sem sair do chão da obra
A visibilidade nas redes ampliou o alcance de um trabalho que Lis agora pretende levar para mais empresas do litoral de Santa Catarina. A maior parte de seus clientes ainda está no Paraná, mas o objetivo é ampliar essa atuação na nova região e ajudar as empresas com que trabalha a se tornarem referência em segurança, locação de equipamentos e relacionamento com o cliente.
O crescimento, porém, não aparece como único parâmetro de futuro. Lis fala em transparência, limites de atuação e ética antes do crescimento. Também mantém a formação como parte da rotina e hoje cursa uma pós-graduação em Direito e Processo do Trabalho. Para ela, estudar antes de falar sobre uma nova regra é parte do trabalho.
A experiência também reforçou sua visão sobre a presença feminina na construção civil. Em um setor que ela considera majoritariamente masculino, quer mostrar que uma mulher pode ocupar espaço, falar com autoridade e atuar com clareza sem abrir mão do respeito. Ao olhar para tudo o que construiu, porém, Lis também reconhece as pessoas que estiveram ao seu lado desde o começo.
“Grande parte do que estou construindo hoje eu devo ao meu marido, que me mostrou a construção civil. Minha família é minha base e minha filha também faz parte disso”.

Legado que continua em construção
Lis começou a trajetória profissional movida pelo desejo de deixar para trás uma realidade que não queria repetir. Anos depois, encontrou na construção civil um campo em que conseguiu unir conhecimento jurídico, experiência empresarial e presença prática.
Hoje, seu trabalho parte de uma ideia simples: antecipar problemas é mais do que organizar documentos. É acompanhar processos, entender pessoas e agir antes que o risco se transforme em prejuízo.
