Ao trocar a segurança de um emprego pela liberdade de empreender, Mary Farias descobriu que negocios sólidos  não se constrói apenas com números, mas com gestão, propósito e pessoas

O público em Recife ultrapassava 700 pessoas, e Mary Farias estava no palco do evento Empreender Dinheiro, falando para os outros empresários consultores financeiros  sobre gestão, processos e lucratividade para empresários de todo o país. Quem a via ali, segura e com autoridade para abordar temas que muitos consultores financeiros evitam enfrentar, dificilmente imaginaria que, anos antes, ela própria vivia os problemas que descrevia.

A Farias Contábil tinha clientes e faturamento, mas faltavam processos, método e lucratividade. Mary passava os dias apagando incêndios, consumida pelas demandas do operacional, sem conseguir dedicar tempo ao que realmente importava. Foi diante da contradição de ajudar outros empresários a organizarem suas finanças enquanto negligenciava o próprio negócio que Mary tomou a decisão que mudaria sua trajetória: aprender aquilo que a faculdade nunca havia ensinado.

O empreendedorismo veio de berço

Mary tinha sete anos quando a família chegou a Parauapebas, no Pará, uma cidade que ainda dava seus primeiros passos. Em busca de oportunidades, o pai Waldir  estava sempre criando alguma coisa. Empreendedor por natureza, vendia isqueiros na feira, comercializava joias, fundou um jornal impresso, abriu uma agência de empregos, manteve uma rádio pirata e, mais tarde, uma gráfica. Foi ali, inclusive, que Mary apresentou um programa de músicas românticas internacionais, em uma experiência que, sem que ela soubesse, começava a moldar sua comunicação.

Não importava o ramo. O que ela via era um homem que nunca deixava de recomeçar e que sempre buscava construir o próprio caminho. Da mãe D´Jesus.  

Trabalhadora incansável, montou uma lojinha de perfumes na garagem de casa e se formou em assistente social aos 43 anos, sendo a primeira da família a entrar numa faculdade. Foi por muito tempo coordenadora da Casa Pastoral da Saúde, projeto das pastorais sociais voltado à medicina popular. Sempre repetiu que o estudo poderia mudar a vida dos filhos, mesmo sem tempo, na maioria dos dias, para acompanhar a lição de casa dos filhos. Mas nunca faltava na hora de resolver um problema. Sem reclamar, fazia o que precisava ser feito.

“Hoje percebo que muitas das coisas que faço profissionalmente, e quem eu sou hoje, nasceram naquela convivência em família, que me ensinou sobre empreendedorismo, princípios e valores. Minha mãe é uma mulher inspiradora.”

A única aprovada da turma

Mary sonhava em cursar Psicologia desde a adolescência. Mas, no dia da matrícula, descobriu que a faculdade não oferecia o curso. Diante da frustração, decidiu seguir por um caminho completamente diferente e ingressou em Ciências Contábeis.

Ainda durante a graduação, trabalhou no setor de arrecadação tributária do município. Mesmo assim, Mary estagiou seis meses, sem salário, em um escritório de contabilidade, movida pelo desejo de aprender a profissão na prática. Ao fim do estágio, foi contratada pela própria contabilidade.

No fim da faculdade, veio a recompensa. Mary foi a única aluna da turma aprovada no exame do Conselho Regional de Contabilidade. Sem escritório e sem empresa, começou a dar aulas preparatórias para os colegas e a ministrar treinamentos para outros profissionais da área. Sem perceber, dava os primeiros passos em uma habilidade que se tornaria uma marca de sua trajetória: ensinar.

“Muitas vezes abri mão de salários melhores para ganhar experiência. Acreditava que o aprendizado de hoje poderia me trazer oportunidades maiores no futuro.”

A decisão que parecia não fazer sentido

Mary se casou aos 20  anos e, ainda muito jovem, tornou-se mãe de Pablo. Ficou cerca de dois anos e meio dedicada aos cuidados do filho e, quando retornou ao mercado de trabalho, conciliou a rotina profissional com a faculdade. Pouco tempo depois, já grávida da segunda filha, se viu diante de uma decisão que mudaria sua vida.

Durante a licença-maternidade, recebeu três propostas ao mesmo tempo: a sociedade em um escritório já estruturado, uma oportunidade na área financeira de um hospital e o convite para montar um escritório de contabilidade dentro de uma empresa. Todas representavam segurança. Mas Mary escolheu um quarto caminho: empreender.

Instalou o escritório na sala de casa, usando o computador da faculdade e uma impressora. Nos primeiros meses, a renda girava em torno de R$ 500. Mas o que a movia não era o faturamento. Era a possibilidade de acompanhar o crescimento dos filhos, participar das reuniões escolares e estar presente nos momentos que jamais voltariam.

Os clientes começaram a chegar, um indicando o outro. Quinze anos depois, a empresa se consolidou como referência no setor e mantém, até hoje, clientes que acompanham sua trajetória desde os primeiros passos.

“A decisão de empreender nasceu muito mais da busca por liberdade de tempo do que do desejo de ganhar dinheiro.”

O ponto de virada

Em determinado momento, Mary percebeu que, embora a empresa tivesse clientes e faturamento, faltavam processos, organização e lucratividade. As contratações equivocadas e os erros acumulados a mantinham presa ao operacional, distante da visão estratégica que desejava construir. Foi uma constatação difícil: ela, que ajudava outros empresários a organizarem suas finanças, ainda precisava organizar o próprio negócio.

Em vez de ignorar o problema, decidiu enfrentá-lo. Buscou uma especialização em Gestão Financeira para Pequenas e Médias Empresas, investiu em mentorias e participou de treinamentos, mesmo em períodos em que o orçamento era apertado. Aos poucos, deixou de se enxergar apenas como contadora e passou a assumir o papel de empresária, estrategista financeira e mentora.

Essa transformação também redefiniu a Farias Contábil, que ampliou sua atuação e passou a oferecer soluções voltadas ao crescimento sustentável das empresas. Em 2021, nasceu a M4 Finanças, empresa especializada em estruturar o financeiro de pequenas e médias empresas para crescerem com gestão, processo, lucro e caixa. Mais do que uma mudança de posicionamento, a experiência virou uma filosofia que Mary compartilha com outros empresários: antes de ajudar a transformar negócios, é preciso coragem para transformar o próprio.

“A maioria dos profissionais da área contábil se apresenta dizendo ‘Eu sou contador’. Hoje eu me apresento de forma diferente. Eu sou uma empresária da área contábil e estruturo empresas para crescerem com gestão, processo, lucro e caixa.”

O que a liderança ensinou sobre pessoas

Enquanto construía a própria empresa, Mary vivia outra escola em paralelo. Durante nove anos, foi diretora da Mary Kay, liderando uma equipe que chegou a mais de 200 pessoas e alcançando o Top 3 nacional em vendas e iniciação de novas consultoras. Mas o que ficou desse período foi muito mais do que resultados.

Ao acompanhar de perto sonhos, dificuldades e histórias de centenas de mulheres, ela chegou a uma conclusão que levaria para toda a vida: os maiores desafios das pequenas empresas raramente estão nas planilhas. Estão nas pessoas.

Foi ali que Mary percebeu como a ausência de cultura, as contratações equivocadas e a dependência excessiva do dono comprometiam o crescimento dos negócios. A partir dessa experiência, aprofundou seus estudos em liderança, comportamento humano e desenvolvimento de pessoas, incorporando ferramentas de análise comportamental aos processos das empresas que acompanha.

Mais do que números, foi convivendo com pessoas que ela aprendeu lições que nenhum curso de contabilidade seria capaz de ensinar.

“Não basta contratar alguém porque é de confiança. É preciso contratar pessoas compatíveis com a cultura da empresa, comprometidas com os resultados.”

Do escritório ao palco de 700 pessoas

Em 2021, Mary decidiu que precisava ser conhecida para além da carteira de clientes que havia construído ao longo dos anos. Revisou a comunicação, fortaleceu a identidade da marca e passou a usar as redes sociais de forma consistente, tornando-se uma das primeiras profissionais da contabilidade em sua região a apostar nesse caminho. Vencer a timidez diante das câmeras não foi simples, mas ela decidiu encarar o desafio.

Os conteúdos que produzia tinham um público bem definido: empresários que faturavam, mas não lucravam, misturavam as finanças pessoais com as da empresa e mantinham negócios excessivamente dependentes do próprio dono. Assuntos que muitos evitavam abordar com tanta clareza. O resultado veio em forma de reconhecimento e convites para compartilhar conhecimento. Ainda naquele ano, subiu ao palco do Empreender Dinheiro, em Recife, diante de mais de 700 pessoas, no mesmo palco que  Gustavo Cerbasi palestraria em seguida.

Os prêmios e conquistas vieram como consequência. Mary foi eleita, por votação popular, Líder em Consultoria Financeira em duas edições do Prêmio Líder, no Pará. Em 2025, realizou duas imersões empresariais próprias o M4 Day e lançou o livro “Por que as empresas falham?”, que estreou entre os três mais vendidos em seu lançamento. Um segundo livro, em coautoria com a Empreender Dinheiro, está previsto para novembro.

Mais do que ampliar a visibilidade, Mary consolidou uma convicção: conhecimento só faz sentido quando é compartilhado.

“Se esse conhecimento vai me ajudar a crescer, ele não é um gasto. É um investimento.”

Fé, família e os quatro pilares

Gestão, processos, lucro e  caixa são os pilares que Mary ensina hoje aos empresários que acompanha. Curiosamente, foram justamente esses os pontos que mais desafiaram sua própria empresa nos primeiros anos. O aprendizado veio da prática, e talvez por isso ultrapasse os limites do escritório. A disciplina que aplica aos negócios é a mesma que sustenta a vida que construiu.

Casada há mais de 22 anos com Maciel Farias, que hoje também é seu sócio, Mary fala do marido como alguém que sempre caminhou ao seu lado, seu maior apoiador. O filho mais velho, Pablo Henrique, já integra o negócio da família enquanto cursa Ciências Contábeis. Tayna, de 14  anos, começa a dar os primeiros passos, e Rebeca completa a família. Cristãos e atuantes na igreja Sara Nossa Terra, eles seguem uma ordem de prioridades que Mary repete sem hesitar: Deus, família e negócio.

Fora do ambiente empresarial, ela cultiva uma rotina simples. Pratica yoga, gosta do contato com a natureza e faz questão de visitar a mãe na chácara onde ela mora. Todos os anos, reserva um tempo para viajar com a família. Para Mary, prosperidade nunca esteve restrita aos números. Está na possibilidade de viver com propósito e estar presente ao lado das pessoas que considera mais importantes.

“Continuo acreditando que prosperidade não significa apenas dinheiro. Significa liberdade de tempo, liberdade de escolha, liberdade para viver aquilo que realmente importa.”

Quem ensina o que viveu

Olhando para trás, Mary identifica as conexões que antes não via. A rádio do pai moldou sua comunicação, a agência de recrutamento despertou o interesse por pessoas, as vendas desenvolveram sua capacidade comercial, a contabilidade trouxe conhecimento técnico, a Mary Kay ensinou liderança e as mentorias fortaleceram seu posicionamento. 

Toda essa trajetória convergiu para um único propósito: ajudar empresários a construir negócios mais lucrativos, organizados e sustentáveis. E, quando pensa em como gostaria de ser lembrada, Mary não fala de prêmios, palcos ou faturamento. Prefere ser reconhecida pela forma como tratou as pessoas, pelos valores que transmitiu e pelo impacto que deixou na vida de quem cruzou seu caminho.

A mesma sala de casa onde tudo começou, com um computador e uma impressora, hoje é só uma lembrança distante de uma empresa que se tornou referência. Mas é dali que vem, até hoje, o que ela tem de mais valioso para ensinar.

“Quando penso em como gostaria de ser lembrada, não penso apenas na empresária ou na contadora. Gostaria de ser lembrada pela pessoa que fui, pela forma como tratei as pessoas, pelos valores que deixei.”

@maryfariasfn