Da passagem pelos bastidores de grandes empresas da moda de São Paulo ao comando do próprio ateliê, Nete construiu uma carreira baseada em técnica e proximidade. Hoje, no Art Nete Ateliê, sua experiência se transforma em peças exclusivas, atendimento personalizado, planos para o futuro e uma nova fase profissional

Da dor nasceu o primeiro ponto

Antes de vestir outras mulheres, Nete precisou encontrar na costura um caminho próprio. Aos 13 para 14 anos, a perda da irmã Dulce mudou o rumo de sua história.

Dulce tinha 21 anos, morreu de leucemia e já era costureira. Aprendeu o ofício a pedido da mãe e fazia as roupas da família em uma máquina de pedal, sem energia elétrica, na fazenda onde todos viviam, em Aroeira de Mairi, distrito de Mairi, na Bahia. Nete cresceu observando a irmã trabalhar e, depois da perda, sentou-se diante da máquina e começou a fazer as próprias roupas.

O que começou dentro de casa logo alcançou familiares, professoras, vizinhos e outras pessoas da região. Décadas depois, aquela habilidade descoberta na adolescência se transformaria em profissão e levaria Nete a comandar um ateliê em Diadema, na Grande São Paulo, voltado a noivas, madrinhas e moda festa.

“Foi através de uma dor que eu comecei.”

Quando o talento virou profissão

Na Bahia, o talento veio antes do diploma. A infância de Nete foi simples, em uma família de 11 filhos, marcada pelo trabalho na roça e por limitações materiais, mas também pela prioridade que os pais davam aos estudos. Foi ali que ela aprendeu valores de ética, dignidade e responsabilidade que levaria para a vida profissional.

Durante a adolescência, a costura dividia espaço com o trabalho como telefonista na antiga Telebahia. Sem formação específica, Nete aprendia na prática, copiando peças, retirando moldes de revistas e costurando para pessoas próximas. Aos 24 anos, mudou-se para São Paulo para estudar. Ficou. Em 2002, fez o primeiro curso de modelagem industrial, um passo que transformou a habilidade intuitiva em conhecimento técnico.

Depois, passou pelo ateliê do estilista André Lima, na Vila Olímpia, onde entrou como costureira e avançou rapidamente para funções de pilotagem, modelagem e resolução de problemas. Na sequência, trabalhou por seis anos na marca Giuliana Romanno, como gerente de produção, experiência que ampliou sua visão sobre criação, produção e gestão dentro da moda.

“Eu sou muito proativa. Quando vejo que alguma coisa deu errado, eu não espero ser chamada, eu já vou resolvendo”.

Da modelagem ao próprio negócio

Foi no ambiente profissional que Nete percebeu que sua relação com as clientes poderia abrir outro caminho. Na empresa onde trabalhava, próxima à Avenida Faria Lima, em São Paulo, executivas passaram a pedir que fosse ela quem marcasse e acompanhasse os ajustes de suas roupas. A confiança cresceu a ponto de a própria dona da empresa precisar limitar esse atendimento.

Nete já tinha máquinas próprias e decidiu transformar aquela percepção em negócio. Montou o ateliê em casa e, inicialmente, concentrou a operação no desenvolvimento de coleções para empresas e estilistas. Trabalhou com Marcelo Quadros, desenvolveu e produziu para a Daslu enquanto a marca esteve em atividade e também fez coleções para marcas como Trinitá e para o estilista de noivas Lucas Anderi.

O sob medida para clientes individuais cresceu aos poucos, puxado principalmente por indicações. Segundo Nete, 90% das clientes chegam por recomendação de outras clientes ou de lojistas parceiros. A reputação construída nesse processo ajudou a deslocar o centro do negócio para aquilo que ela já fazia desde o início: entender a pessoa e transformar uma ideia em roupa.

“Eu percebi que eu tinha um dom para a moda e decidi montar meu ateliê”.

Exclusividade como estratégia

Quando o negócio se consolidou, Nete escolheu reduzir o volume para preservar o controle sobre aquilo que considera seu principal diferencial: a exclusividade. Hoje, o Art Nete Ateliê atua com noivas, festas, peças sob medida, venda e aluguel, com atendimento com hora marcada. A marca se apresenta nas redes sociais como produtora de “vestidos exclusivos para mulheres únicas” e destaca mais de 30 anos de experiência.

A proposta está menos na vitrine do que no processo. Formada em modelagem e moda, Nete entende o desejo da cliente, avalia o que funciona para o corpo e desenvolve a peça sem depender de terceiros para transformar uma ideia em vestido. O atendimento começa pela escuta e passa pela orientação técnica, em uma relação mais próxima do que a lógica de volume adotada por muitas lojas.

A experiência também levou a uma mudança de modelo de negócio. Depois de chegar a ter oito costureiras, Nete deixou de manter uma equipe fixa e passou a terceirizar parte da produção de acordo com a demanda. Ela afirma que a decisão reduziu custos, melhorou sua qualidade de vida e trouxe mais resultados financeiros. A escassez de mão de obra qualificada no setor, especialmente em trabalhos que exigem acabamento especializado, também pesa nessa escolha.

“Primeiro você escuta a cliente. Depois você dá a opinião como profissional. Acho que esse é o meu diferencial”.

Valores que também vestem o negócio

A forma como Nete conduz o ateliê começou a ser construída muito antes dele existir. Justiça, lealdade, verdade, transparência, respeito e generosidade são princípios que ela associa ao pai e que hoje orientam sua relação com clientes e parceiros.

Na prática, isso também significa saber recusar. Quando a agenda está cheia ou o prazo de uma cliente coloca em risco a qualidade da entrega, Nete prefere dizer não a assumir um compromisso que talvez não consiga cumprir. Para ela, preservar a confiança vale mais do que preencher a agenda.

Essa mesma visão atravessa a vida pessoal. Casada com Celso Paschoal, ela serve ao lado do marido na Igreja Batista da Fé, onde os dois fazem parte do ministério de casais e ministram aulas para outros casais. Nete diz ter orgulho dessa atividade e a considera parte de seu chamado, unindo fé, família e serviço em uma mesma dimensão de sua vida.

“Ser uma pessoa justa, uma pessoa leal, uma pessoa verdadeira. Isso eu aprendi com meu pai e levo para a empresa, para minha casa e para o meu casamento”.

O conhecimento que precisa circular

Depois de construir uma carreira baseada em fazer, Nete começa a pensar em uma nova etapa baseada em ensinar. O desejo não surgiu agora. Na Bahia, ela já dava aulas de corte e costura informalmente, mesmo sem formação específica, e viu uma prima abrir um ateliê em Salvador a partir do conhecimento que recebeu dela.

Ao longo da carreira, também ajudou a formar profissionais que trabalhavam para seu negócio. Algumas dessas costureiras, segundo ela, hoje mantêm suas próprias oficinas. Essa experiência reforçou a percepção de que seu conhecimento pode ter valor para outras mulheres, inclusive para quem busca uma renda extra e já possui algum contato com a costura.

O projeto é transformar essa experiência em cursos online de corte, costura e modelagem. Para isso, Nete sabe que precisará reduzir parte da carteira de clientes, organizar melhor sua operação e deixar de concentrar tudo em suas próprias mãos. A meta é colocar essa nova frente em prática a partir de 2027.

“Eu quero passar conhecimento. Quero que as pessoas olhem para a própria trajetória e falem: eu aprendi”.

Legado que continua pelas mãos de outras mulheres

Nete começou diante de uma máquina de pedal, aprendendo a costurar depois de perder a irmã. Construiu uma carreira que passou por ateliês, estilistas e marcas conhecidas, abriu o próprio negócio e transformou experiência técnica em um diferencial reconhecido pelas clientes.

Agora, o próximo passo é fazer esse conhecimento circular. O movimento também aparece em outros projetos, como a criação de bolsas de tecido para venda, desenvolvidas a partir de uma demanda de uma cliente e de uma oportunidade que ela identificou no próprio trabalho. A lógica é a mesma que marcou sua trajetória: observar, testar e transformar uma possibilidade em produto.

Quando pensa em como gostaria de ser lembrada, Nete não coloca faturamento ou reconhecimento profissional no centro da resposta. Fala de generosidade, de humanidade e das roupas que permanecem guardadas por décadas. Para ela, o maior sinal de permanência está em quem recebeu algo dela e levou aquilo adiante.

Instagram: @artneteatelie