Aos 28 anos, o advogado paulista comanda um grupo de empresas que reúne escritório, consultoria e operação de crédito, atende 14 empresas e acompanha mais de 700 processos em todo o país. Antes dos números, das multinacionais e da experiência em Harvard, sua história começou com uma pergunta: o que acontece quando um direito existe, mas a informação para acessá-lo não chega a todos?

Da falta de informação à escolha pelo Direito
Algumas escolhas profissionais começam com um plano. A de Wesley começou com a percepção de que faltava informação para quem mais precisava dela. Na infância, na periferia de São Paulo, uma experiência familiar ajudou a definir o caminho que seguiria anos depois.
Filho de um soldador e de uma babá, Wesley cresceu em Embu das Artes vendo os pais abrirem mão de outros gastos para investir em seus estudos. No ensino fundamental, a família economizou para uma viagem de formatura, mas a empresa contratada desapareceu com o dinheiro. Ninguém sabia que existia Justiça gratuita ou como tentar recuperar o prejuízo. A experiência deixou em Wesley uma percepção que ganharia outro sentido anos depois: sem informação, até um direito pode parecer inacessível.
Antes de encontrar no Direito uma forma de responder a essa inquietação, Wesley passou por diferentes trabalhos. Foi garçom, animador de festas e motorista de aplicativo. Quando chegou à faculdade, pretendia cursar Publicidade e Propaganda, mas mudou de ideia na matrícula e escolheu Direito.
“Quando a pessoa não tem condições e não tem dinheiro, é tudo muito mais difícil. Às vezes, se a gente tivesse o mínimo de informação possível, a gente correria atrás”.

O corporativo como escola de negócios
Se a falta de informação apontou o caminho, foi dentro das empresas que Wesley aprendeu a transformar conhecimento em solução. Bolsista na faculdade, começou a estagiar gratuitamente no núcleo jurídico da instituição. Depois, conseguiu uma vaga em um banco corporativo, passou a atender clientes maiores e integrou uma equipe reconhecida pela Análise Advocacia 500.
Após a passagem por um escritório que atuava dentro do Santander, entrou, já formado, no grupo de tecnologia Qintess. Ali, precisava levantar informações públicas e certidões para analisar candidatos, um processo que levava cerca de três dias. Ao se aproximar dos desenvolvedores e aprender com eles, criou um sistema que reduziu a tarefa para cerca de três minutos. A solução passou a ser comercializada pela empresa.
Na sequência, vieram a 99, o processo seletivo para o programa de trainee da Bayer, que segundo Wesley reuniu cerca de 14 mil candidatos, e a Raia Drogasil, onde atuou com compliance e diversidade. Mais tarde, uma indicação o levou a um escritório de São Paulo e Rio de Janeiro. O trabalho, iniciado com um cliente, chegou a oito e a uma carteira de aproximadamente 800 processos.
“Eu sempre gostei de observar muito e aprender com as pessoas”.

Quando a carreira começou a pedir mudança
A experiência corporativa ampliou seu repertório, mas também mostrou os limites de um modelo profissional que Wesley passou a questionar. Aos 21 anos, ainda no banco, enfrentou um episódio de esgotamento em uma rotina que podia chegar a 14 ou 15 horas por dia.
Anos depois, relata ter vivido um episódio de racismo que o levou a falar publicamente sobre o caso. As experiências mudaram sua relação com o trabalho e fizeram surgir outra reflexão: não bastava escolher onde construir uma carreira, era preciso pensar no ambiente que queria construir.
Nesse percurso, Wesley encontrou na internet o ProLíder, programa gratuito de formação de jovens lideranças. O contato com o programa o ajudou a entender caminhos para processos seletivos, bolsas e oportunidades acadêmicas no exterior. Ele foi aprovado em um curso de análise financeira para advogados em Harvard.
Por causa da pandemia, começou as aulas remotamente e depois viajou aos Estados Unidos para concluir a formação presencial, que durou três meses. A experiência ampliou sua visão sobre o conhecimento. Em Harvard, uma pergunta recorrente dos professores passou a acompanhá-lo: o que fazer com aquilo que havia aprendido?
Foi também nesse período de mudanças que se aproximou de Thiago, hoje seu sócio, que havia deixado o São Paulo Futebol Clube para empreender. Os dois encontraram pontos em comum na forma de enxergar o ambiente corporativo e decidiram construir um negócio próprio.
“O que você quer fazer para melhorar o mundo com o que você aprendeu até hoje?”.

Da ideia à estrutura
A decisão de empreender tirou a inquietação do campo das ideias e colocou Wesley diante de outro desafio: construir uma operação. Ao lado de Thiago, ele criou um modelo que não ficaria restrito à advocacia.
Hoje, a dupla possui um escritório focado em jurídico corporativo, a Araújo Lopes Consultoria, que também aloca executivos em multinacionais, e a Bass Crédito, voltada à cessão e recuperação de créditos. Os serviços se complementam: a consultoria atua com profissionais em áreas como financeiro e compliance, enquanto o escritório responde pelas questões jurídicas e a operação de crédito trabalha com ativos e dívidas.
Segundo Wesley, o grupo tem cerca de dois anos, reúne aproximadamente 20 pessoas entre equipe interna e profissionais alocados, atende 14 empresas, acompanha mais de 700 processos em diferentes regiões do país e já supera R$2 milhões em faturamento.
“Demorou muito para eu me classificar como empresário. Antes eu falava que era só advogado. Hoje a gente monta um núcleo em que uma empresa conversa com a outra e os serviços são integrados”.

Uma linguagem que cabe em qualquer mesa
Com a estrutura crescendo, Wesley preservou uma regra da própria carreira: o conhecimento precisa ser compreendido para produzir resultados. A experiência corporativa mostrou que uma mesma questão jurídica pode envolver pessoas de diferentes áreas e níveis hierárquicos.
Por isso, evita o estereótipo do advogado distante e cercado por termos que apenas outro especialista entende. Contratos, riscos e decisões precisam ser explicados com clareza para quem está na operação e para quem ocupa a diretoria. Simplificar a linguagem, para ele, não é reduzir o problema, mas permitir que o cliente entenda o que está decidindo.
Essa lógica também orienta a relação comercial. O objetivo é resolver o problema que levou aquela pessoa ou empresa até ali, sem conduzir uma decisão apenas porque ela favorece o escritório. É a mesma preocupação que esteve na origem de sua escolha pelo Direito: reduzir a distância entre o direito que existe e quem precisa acessá-lo.
“Minha linguagem tem que ser muito acessível, desde para a moça que está limpando até para o diretor, para o CEO, para o CFO”.

Diversidade como prática de gestão
A experiência acumulada também passou a orientar quem entra nas empresas e quem encontra espaço dentro delas. A diversidade, presente em parte da carreira de Wesley, ganhou lugar na estrutura que ele decidiu construir.
Segundo ele, a equipe interna é formada majoritariamente por mulheres, a maior parte delas mulheres negras, além dele e do sócio. Na consultoria, a mesma visão aparece quando clientes procuram determinados perfis profissionais. Nesses casos, ele afirma buscar oportunidades para ampliar a diversidade nas organizações.
O tema ganha dimensão em um setor ainda marcado por desigualdades. O Perfil ADV, estudo nacional realizado pela OAB em parceria com a FGV, apontou que 64% dos profissionais da advocacia se declaram brancos, enquanto pardos representam 25% e pretos, 8%.
Para Wesley, a diversidade também influencia sua atuação no Judiciário, especialmente em casos de discriminação. Ele diz perceber como diferentes experiências sociais podem influenciar a compreensão de uma mesma situação.
“Quando o cliente chega e diz que quer determinado profissional, eu opto por levar diversidade para dentro das empresas”.

Um legado que ainda está em construção
Depois de transformar experiências em modelo de negócio, Wesley agora mede o futuro pelo tamanho da estrutura que ainda pretende construir. Entre as próximas metas estão criar uma área própria de recursos humanos, hoje terceirizada, conquistar uma multinacional como cliente, ocupar um andar inteiro e triplicar o faturamento até o próximo ano.
O escritório já passou de uma sala de 40m² para outra de 70m². Aos 28 anos, Wesley também mantém entre suas metas chegar à lista Forbes Under 30, para a qual afirma já ter sido indicado anteriormente.
Mas os números não resumem sua definição de sucesso. Para ele, sucesso significa trabalhar com aquilo em que acredita, ajudar pessoas e terminar o dia em paz com as próprias escolhas. Também quer que suas empresas sejam lembradas por empregar profissionais que outras companhias não escolheriam e por encontrar caminhos para atender quem não tem condições de pagar por uma estrutura jurídica.
A história começou com uma família que não sabia a quem recorrer. Hoje, Wesley constrói uma empresa baseada na ideia de abrir caminhos para quem precisa de orientação, oportunidade ou representação. O próximo passo não é apenas crescer. É fazer do crescimento uma forma de ampliar o acesso.

Instagram: @wesleylopesg