Nutricionista de formação, Carolina Menezes construiu quase duas décadas de trajetória à frente da Luxglass & Co., hoje referência nacional no setor, antes de decidir, aos 45 anos, mergulhar de cabeça na inteligência artificial. Dois anos depois, essa nova paixão ganhou propósito: nasceu o Exame App, plataforma que organiza a saúde de famílias inteiras.
Na sala de espera de um hospital, Carolina Menezes tentava responder às perguntas mais simples sobre a própria filha: tipo sanguíneo, alergia, remédios em uso. Não lembrava de nenhuma resposta. Foi naquele instante de impotência, mais do que em qualquer plano de negócios, que começou a nascer o Exame App.
As memórias que vêm em forma de cheiro
Carolina nasceu e cresceu em Belo Horizonte, numa infância que descreve como extremamente feliz e estável. As lembranças mais nítidas são de cheiros: o jornal que o pai lia nas refeições, a comida da mãe nos fins de semana, o cheiro da merendeira na escola.
Os pais escolheram a estabilidade em vez da ambição e criaram um ambiente onde os problemas eram enfrentados juntos. Aos 15 anos, começou a trabalhar como secretária na imobiliária onde a mãe era funcionária, dando início à sua trajetória profissional.
Conquistou bolsa integral para cursar Nutrição, teve dois filhos ainda na faculdade e concluiu o curso sem atrasos.
“Eles nunca foram desculpa. Eles sempre foram o motivo.”

Da consultoria ao comando da Luxglass
Formada, Carolina trabalhou como nutricionista no Hospital João XXIII, referência em trauma e queimados no Brasil, e mantinha uma consultoria de normas sanitárias para padarias e restaurantes.
Em 2006, o então marido a convidou para se tornar sócia da Luxglass, empresa mineira de películas para vidros. Comprou metade por R$ 30 mil e assumiu o comercial. Em 2010, a empresa virou representante da 3M e, três anos depois, distribuidora exclusiva da marca no Brasil.
Em 2019 veio o divórcio, e Carolina assumiu sozinha a empresa. Poucos meses depois, a pandemia. Enquanto muitas empresas reduziam operações, ela lançou a LuxGlass Decor, linha de revestimentos vinílicos que fez a empresa crescer 200% sem desligar um único colaborador.
Hoje a Luxglass é referência nacional no segmento, com clientes como Unimed, MRV, Coca-Cola e Google. Para Carolina, o maior patrimônio construído nesse período nunca foi o faturamento.
“Entendi que o maior patrimônio de uma empresa não está só no faturamento. Está na confiança.”

Reformar sem parar. Transformar sem quebrar.
O diferencial da Luxglass é oferecer uma transformação sem o desgaste de uma reforma convencional. Hospitais, hotéis, escritórios e residências ganham um novo ambiente sem quebra-quebra, sem cheiro e em uma fração do tempo e do custo da marcenaria tradicional, com revestimentos bactericidas, antifúngicos e não inflamáveis, além de películas para vidros de alta performance.
Mais do que um serviço, esse modelo revela a forma como Carolina enxerga qualquer desafio: antes de pensar na solução, procura entender a experiência de quem vai utilizá-la. Foi assim na Luxglass, e seria assim, anos depois, no Exame App.
Ela diz que nunca trabalhou movida pela concorrência: compete consigo mesma, estabelece metas próprias e só assume projetos pelos quais realmente se apaixona.
“Tudo o que me proponho a fazer, só consigo fazer se estiver completamente apaixonada.”

Ambição não é defeito. É combustível.
Carolina nunca teve dificuldade em admitir que é ambiciosa. Para ela, a ambição só deixa de ser virtude quando passa por cima das pessoas. Até lá, é o que impulsiona alguém a construir algo maior do que si mesma.
Isso também moldou a cultura da empresa. Ao lado da irmã Isabella, gerente administrativa e braço direito desde 2021, e do irmão Lucas, responsável pelo marketing, consolidou um negócio familiar baseado na transparência. Um princípio é inegociável: nunca fingir saber o que não sabe.
Diagnosticada com TDAH já na vida adulta, Carolina diz que precisou de tempo para entender o que o diagnóstico significava na prática. Hoje, enxerga o hiperfoco como uma das características que mais impulsionam seu trabalho.
“Fui diagnosticada com TDAH já adulta. Levei um tempo para entender o que isso significava na prática, além do rótulo. Hoje sei que, quando um projeto realmente me conquista, mergulho nele por inteiro. E é justamente nesse mergulho que produzo meu melhor trabalho. Foi assim com a Luxglass. Foi assim com a inteligência artificial. É assim com o Exame App. Não vejo isso como algo a esconder. É simplesmente a forma como minha mente funciona melhor: com intensidade, não em doses moderadas.”
Essa forma de enxergar o trabalho também ajuda a explicar a dimensão dos objetivos que estabelece para si.
“A minha ambição não é ficar multimilionária. É que o Exame App seja capaz de salvar vidas.”

A família foi sua primeira escola de liderança
Carolina nunca separou completamente a vida pessoal da profissional. Conversas importantes com os filhos acontecem à mesa, muitas vezes com a seriedade de uma reunião de trabalho, e decisões da empresa surgem em meio aos encontros de família.
Cada um dos três filhos a desafiou de um jeito diferente: João Vitor é mais reservado, Maria Clara tem personalidade forte e espírito de liderança, Luca transita entre a música e o esporte. Conviver com perfis tão distintos ensinou algo que considera indispensável para qualquer gestor: pessoas diferentes precisam ser compreendidas de maneiras diferentes.
Entre todas as experiências da vida, nenhuma a transformou tanto quanto a maternidade. Um dos momentos de que mais se orgulha aconteceu quando os filhos foram ao cinema com o dinheiro reservado para jantar no shopping, mas voltaram para casa com fome. No caminho, decidiram doar o valor para ajudar uma mãe a comprar fraldas para o filho.
“Foi a maternidade, e não a faculdade nem o MBA, que me ensinou a resiliência que levo até hoje para as minhas empresas.”

Quando a lembrança falhou, nasceu uma solução
O ponto de virada aconteceu numa emergência: Maria Clara, filha de Carolina, sofreu um episódio convulsivo, depois diagnosticado como síndrome conversiva por estresse. No hospital, vieram as perguntas de rotina: tipo sanguíneo, alergias, remédios em uso. Carolina não sabia responder a nenhuma.
Na sala de espera, viu que o problema não era só dela: outras famílias buscavam exames perdidos no celular ou em pastas, entre elas uma senhora que não encontrava justamente o exame que o médico precisava.
Foi ali que entendeu: a dificuldade não era falta de informação, era falta de organização. Nasceu a ideia do Exame App, que reúne o histórico de saúde de uma família em um só lugar. O sistema usa o Kian, assistente de inteligência artificial da plataforma, para interpretar exames e indicar o que está fora da referência. O recurso “Meu Prontuário” compartilha esse histórico com o médico por um link.
Mas Carolina faz questão de dizer que o Exame App não nasceu apenas de uma emergência. Nasceu de uma trajetória. Foram anos vivendo a saúde na prática, construindo empresas, liderando pessoas, estudando tecnologia e aprendendo a aplicá-la de forma útil, além de gerenciar a saúde da própria família. A dor acelerou o processo. Mas a base já estava construída.
A organização básica é gratuita. Lembretes de consultas, vacinas e medicamentos, além da gestão de múltiplos perfis, têm um custo simbólico, porque cuidar da própria saúde não deveria depender da condição financeira de ninguém. Hoje, ela mesma utiliza o aplicativo para acompanhar a mãe, que está em busca de um diagnóstico e passa por diferentes médicos e especialidades, mas agora sem precisar carregar uma mochila cheia de exames.
“A gente terceirizou a própria saúde. Chegou a hora de assumir essa responsabilidade de volta.”

Trinta anos de dados podem mudar tudo
Carolina acredita que o Exame App está só no começo. Entre os próximos passos estão negociações para expandir os recursos de acessibilidade, incluindo tradução em Libras, além da implementação de respostas por voz e de uma ferramenta capaz de resumir automaticamente consultas médicas.
Sua visão vai além de novas funcionalidades: imagina uma plataforma com milhões de usuários e décadas de dados anonimizados, capazes de identificar padrões, antecipar diagnósticos e contribuir para o desenvolvimento de tratamentos. Mais do que um aplicativo, quer ajudar a transformar a forma como as pessoas cuidam da própria saúde.
“Meu maior desafio não foi construir o produto. Foi convencer as pessoas de que precisam parar de normalizar a desorganização e assumir o protagonismo da própria saúde.”

O legado de quem nunca parou de aprender
A trajetória de Carolina nunca seguiu um roteiro previsível: formou-se em Nutrição, assumiu uma empresa de películas para vidros, reinventou o negócio durante a pandemia, voltou a estudar aos 45 anos, fez um MBA em Inteligência Artificial e transformou uma experiência pessoal em uma plataforma de saúde. Em comum, um traço que ela reconhece sem hesitar: a disposição permanente para aprender.
Quando pensa em como gostaria de ser lembrada daqui a cinquenta anos, não fala sobre patrimônio ou tecnologia. Prefere imaginar que deixou uma contribuição para a vida das pessoas e que sempre teve a intensidade como guia.
Se o Exame App cumprir a missão que ela idealiza, o resultado não será medido em usuários ou downloads, mas em quantas famílias deixarão de sentir, numa emergência, a mesma impotência que ela viveu naquela sala de espera. O que começou com uma pergunta sem resposta hoje pode ajudar milhares de famílias a nunca mais viverem o mesmo silêncio.
