Durante muito tempo, pedir uma cerveja sem álcool foi associado a situações específicas, como dirigir depois de um encontro ou evitar a bebida por recomendação médica. Agora, o produto começa a ocupar outros espaços, acompanhando consumidores que desejam participar de momentos sociais sem necessariamente consumir álcool.
Um levantamento da Neogrid mostra que a participação das cervejas sem álcool no volume total da categoria no Brasil passou de 2,5% em 2024 para 3,9% em 2026. A presença desses produtos nos carrinhos de compra também avançou: de 4,4% para 5,6% no mesmo período.
A mudança acontece em paralelo a uma redução declarada no consumo de bebidas alcoólicas. Pesquisa Ipsos-Ipec encomendada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), citada pela Neogrid, identificou que 64% dos adultos disseram não consumir álcool em 2025, ante 55% em 2023. Os dados indicam uma transformação de hábitos, embora não demonstrem que todas essas pessoas tenham migrado para cervejas sem álcool.

A cerveja sem álcool deixou de ocupar um espaço de nicho para ganhar enfim relevância dentro da categoria. | Marcelo Alves, gerente-executivo de Dados da Neogrid
A bebida começa a ocupar novas ocasiões
A mudança de comportamento aparece na maneira como as marcas apresentam a categoria. Em vez de destacar exclusivamente a ausência de álcool, as campanhas passaram a associar o produto a eventos esportivos, encontros entre amigos e momentos de entretenimento.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em 8 de outubro de 2026, Juliana Aguiar, diretora-geral da Estrella Galicia, afirmou que a cerveja sem álcool passou a fazer parte de novas ocasiões ligadas ao esporte, à socialização e ao equilíbrio. A declaração mostra como a indústria tenta desvincular o produto das situações em que beber álcool é impossível ou inconveniente.
Os números da Neogrid reforçam a mudança comercial. Entre 2024 e 2026, o tíquete médio das compras de cerveja sem álcool subiu de R$ 26,41 para R$ 31,94, enquanto a quantidade média de unidades por compra avançou de 4,6 para 5,5.

O desafio está em conquistar o consumidor
O crescimento, porém, não depende apenas da divulgação. A experiência sensorial continua sendo importante para quem compara uma versão sem álcool com a bebida tradicional. Sabor, aroma, textura e variedade podem definir se a primeira compra se transformará em hábito.
Também existe uma diferença entre os rótulos. Pela legislação brasileira, uma cerveja classificada como sem álcool pode conter até 0,5% de álcool residual, enquanto produtos identificados como 0,0% possuem limite máximo de 0,05%, segundo a reportagem da Folha. Para quem precisa evitar completamente o álcool, conferir a embalagem é importante.
A diversificação da categoria mostra que o consumidor pode querer preservar o ritual social da bebida sem necessariamente manter o consumo alcoólico. Isso não significa que todos estejam abandonando a cerveja tradicional, mas que a escolha passou a incluir mais alternativas.
Para a indústria, o desafio será entregar qualidade suficiente para que o produto continue sendo escolhido depois da curiosidade inicial. Para o consumidor, a mudança amplia as possibilidades de participar de encontros e ocasiões sociais de acordo com suas preferências.