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O apelido de René Lacoste virou um crocodilo e ajudou a construir uma marca bilionária
Life
14.10.2026

O apelido de René Lacoste virou um crocodilo e ajudou a construir uma marca bilionária

Ao unir uma camisa criada para o tênis a um símbolo reconhecível, o fundador transformou uma necessidade prática em uma identidade comercial duradoura.

Na década de 1920, jogar tênis significava entrar em quadra com roupas pouco adaptadas aos movimentos do esporte. René Lacoste, um dos principais tenistas franceses de sua geração, buscava mais conforto e liberdade para jogar. A solução foi uma camisa de mangas curtas, feita de tecido leve e respirável, que se tornaria a base de um dos produtos mais conhecidos da indústria da moda.

O crocodilo, hoje associado imediatamente à marca, nasceu de um apelido. Em 1923, durante uma viagem a Boston, o capitão da equipe francesa prometeu a Lacoste uma mala de pele de crocodilo caso ele vencesse uma partida. O tenista perdeu, mas a imprensa americana passou a chamá-lo de “Crocodilo”, em referência à aposta e à sua persistência nas quadras. Ele gostou do apelido e pediu ao amigo e ilustrador Robert George que desenhasse o animal para ser bordado em suas roupas.

Em 1933, Lacoste se associou ao empresário têxtil André Gillier para produzir e comercializar a camisa polo. O crocodilo passou a aparecer na peça, conectando o produto à figura do tenista. A companhia se tornou, segundo sua própria história institucional, a primeira marca a exibir um logotipo visível nas roupas. Mais de nove décadas depois, a Lacoste movimenta cerca de € 3 bilhões em receita anual, de acordo com a Exame.

Inventor! Se eu tivesse de colocar uma profissão no meu cartão de visitas, seria essa. Passei a vida inventando. | René Lacoste, tenista e fundador da marca.

O produto veio antes do símbolo

A trajetória da Lacoste mostra que o crocodilo não foi criado para compensar um produto comum. A camisa respondia a uma necessidade concreta dos jogadores: facilitar os movimentos e oferecer mais conforto durante as partidas. O tecido de algodão petit piqué, leve e flexível, ajudou a diferenciar a peça das camisas tradicionais usadas na época.

O símbolo acrescentou uma camada de identidade a essa proposta. Ao colocar o crocodilo na parte externa da roupa, a empresa tornou o produto reconhecível sem depender apenas do nome escrito na etiqueta. A marca passou a associar o animal à persistência de seu fundador, ao tênis e a uma estética esportiva que poderia ser usada também fora das quadras.

David Aaker, professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley e referência em estratégia de marcas, explica que “um símbolo forte pode dar coesão e estrutura à identidade de uma marca, tornando-a mais reconhecível e fácil de lembrar” (tradução livre). O crocodilo exemplifica esse princípio: um elemento visual simples passou a condensar a história, o estilo e a origem da empresa.

Reconhecimento precisa acompanhar a evolução

A expansão internacional começou nos anos 1950, quando as roupas da Lacoste passaram a ser exportadas para outros mercados. Com o tempo, a empresa diversificou o portfólio com calçados, fragrâncias, artigos de couro, acessórios e relógios, mantendo a polo e o crocodilo como referências centrais da marca.

Essa continuidade não impediu mudanças. Depois de enfrentar dificuldades para manter sua relevância nos anos 1990, a Lacoste modernizou as coleções e as silhuetas a partir de 2000, sob a direção criativa de Christophe Lemaire. A estratégia buscou aproximar a marca de novos consumidores sem abandonar os elementos que já faziam parte de sua identidade. Em 2012, a companhia passou ao controle do grupo suíço Maus Frères.

A história ajuda a entender por que logotipos fortes não surgem apenas de uma boa escolha visual. Eles ganham significado quando representam algo que o produto entrega e quando a empresa preserva essa associação ao longo do tempo. O crocodilo se tornou um ativo comercial porque conectou uma peça funcional a uma história reconhecível, capaz de acompanhar a marca mesmo quando seus produtos e públicos mudaram.

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