A sustentabilidade conquistou espaço no discurso dos consumidores, mas transformar preocupação ambiental em escolhas cotidianas continua sendo um desafio. É possível valorizar empresas que reduzem desperdícios e, ao mesmo tempo, desconfiar de produtos reciclados quando chega a hora de comprar.
Uma pesquisa realizada pela Nexus para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), com 2.019 pessoas, identificou essa contradição. Enquanto 72% dos entrevistados avaliam positivamente empresas que investem em economia circular, 43% afirmam evitar produtos reciclados, independentemente do preço.
A resistência está ligada, em parte, à percepção de qualidade. Segundo o levantamento, 30% manifestam desconfiança sobre a durabilidade ou o desempenho de itens reciclados, e 47% dizem ter dúvidas sobre seu funcionamento. O problema, portanto, não se resume à disposição de pagar: envolve confiança, informação e familiaridade com esse tipo de produto.

Hoje, 47% dos brasileiros têm dúvidas sobre o desempenho dos reciclados. | Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI
Informação e infraestrutura também fazem diferença
O descarte é outro ponto de dificuldade. No levantamento, 84% disseram não utilizar sistemas de logística reversa para devolver itens como pilhas, baterias e eletroeletrônicos. Entre as justificativas aparecem a falta de orientação e informação adequada, citada por 33%, e a distância ou escassez de postos de coleta, mencionada por 24%.
Além disso, 58% afirmaram misturar materiais recicláveis ao lixo comum, o que pode dificultar a recuperação desses recursos. Esses resultados mostram que o comportamento individual depende também das condições oferecidas para realizar a escolha considerada correta.
Quando a orientação é insuficiente ou os pontos de entrega ficam longe, a participação exige tempo e esforço adicionais. Tornar a reciclagem mais acessível faz parte da solução.

Sustentabilidade precisa demonstrar valor
A confiança pode crescer quando empresas fornecem informações claras sobre origem, durabilidade, segurança e desempenho dos produtos reciclados. Selos de certificação e comunicação transparente ajudam a reduzir dúvidas, desde que sejam acompanhados por padrões verificáveis.
O preço também continua relevante. Segundo a pesquisa, 38% dos entrevistados só comprariam um produto reciclado se custasse o mesmo que o convencional. Para esse grupo, a decisão depende de não precisar pagar mais por uma opção percebida como ambientalmente preferível.
A economia circular avança quando deixa de ser apenas uma ideia bem avaliada e se torna uma alternativa viável no cotidiano. Isso exige mudanças na indústria, na infraestrutura de coleta e na experiência de compra. Para o consumidor, a sustentabilidade precisa ser compreensível, conveniente e confiável, não apenas desejável.