A segurança digital das empresas costuma ser associada a hackers, malwares e ataques vindos da internet. Um levantamento recente da Proofpoint mostra, porém, que os próprios usuários passaram a ocupar um espaço central na preocupação dos responsáveis por proteger os dados corporativos.
Segundo o relatório Voice of the CISO 2026, divulgado em 25 de setembro, 72% dos CISOs brasileiros apontam o comportamento dos funcionários como a principal vulnerabilidade cibernética de suas organizações. O levantamento ouviu 1.600 diretores de segurança da informação em 16 países, sendo 100 no Brasil.
O resultado aparece justamente quando a percepção sobre ataques externos diminuiu. A parcela de CISOs brasileiros que considera provável que sua empresa sofra um ataque relevante nos 12 meses seguintes caiu de 86% em 2025 para 54% em 2026. A preocupação, portanto, não desapareceu, mas mudou de foco.

O perímetro de segurança hoje é essencialmente humano. | Marcos Nehme, diretor-geral da Proofpoint no Brasil.
O problema aparece especialmente quando alguém sai
Um dos dados mais relevantes do levantamento está relacionado aos desligamentos. Entre as organizações brasileiras que já sofreram perda de dados, 94% afirmaram que funcionários em processo de desligamento tiveram participação no problema. O dado coloca o chamado risco interno no centro da gestão de segurança.
Isso não significa necessariamente uma ação deliberada. Contas que permanecem ativas, arquivos compartilhados, permissões excessivas, informações copiadas para dispositivos pessoais e acessos que não são revogados no momento adequado podem criar pontos de exposição.
Para empresas médias, o desafio é especialmente operacional. Segurança digital não depende apenas de comprar uma ferramenta, mas de estabelecer quem pode acessar cada informação, por quanto tempo e em quais situações.

A IA adicionou outra camada ao problema
A expansão das ferramentas de inteligência artificial também entrou no radar dos responsáveis por segurança. 77% dos CISOs brasileiros consideram a IA generativa um risco de segurança, uma alta de 12 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Além disso, 69% acreditam que funcionários podem utilizar essas ferramentas de maneira que exponha dados sensíveis.
A resposta das empresas ainda está em construção. Segundo o levantamento, 77% já bloqueiam ou restringem o uso de IA generativa internamente, enquanto 76% dos CISOs brasileiros esperam ter de administrar os riscos associados à tecnologia sem recursos ou especialistas adicionais.
Segurança virou também uma questão de gestão
O levantamento mostra que o debate sobre cibersegurança está deixando de ser exclusivamente técnico. Controle de acesso, treinamento, políticas internas, desligamento de funcionários e utilização de ferramentas digitais passaram a fazer parte da mesma equação.
Isso muda também a responsabilidade da liderança. Uma empresa pode ter sistemas sofisticados de proteção e ainda manter riscos se ex-funcionários continuarem com acesso, se colaboradores compartilharem informações de maneira inadequada ou se ferramentas não autorizadas forem utilizadas para processar dados corporativos.
Para o empresário, a questão passa a ser menos sobre imaginar uma barreira perfeita contra ataques e mais sobre construir processos capazes de reduzir a exposição ao longo de toda a jornada do funcionário.