A inteligência artificial já deixou de ser uma novidade restrita aos departamentos de tecnologia. Uma pesquisa do Instituto QualiBest para o iFood mostra que 63% dos profissionais brasileiros entrevistados utilizam ferramentas de IA pelo menos uma vez por dia. Desses, 45% recorrem à tecnologia várias vezes ao dia e 18% uma ou duas vezes diariamente.
O levantamento ouviu 1.406 profissionais de empresas com mais de 100 funcionários, entre analistas e executivos, e encontrou uma diferença curiosa: 69% se consideram preparados para usar IA no trabalho, enquanto apenas 60% consideram suas empresas preparadas.
O problema aparece de forma ainda mais concreta quando se olha para as ferramentas. 28% afirmam que suas empresas incentivam o uso da IA, mas não oferecem as ferramentas necessárias, fazendo com que alguns profissionais recorram a versões gratuitas ou paguem por soluções do próprio bolso.

A próxima fronteira da transformação por IA pode não ser tecnológica. Pode ser cultural. | Raphael Bozza, CHRO do iFood.
O funcionário pode estar mais preparado que a empresa
A diferença de percepção entre indivíduo e organização revela uma mudança importante no comportamento profissional. A IA começa a ser incorporada à rotina de maneira espontânea, mesmo quando a empresa ainda não definiu claramente quais ferramentas devem ser usadas ou como elas devem fazer parte dos processos.
Entre os entrevistados, 71% dizem estar familiarizados ou muito familiarizados com ferramentas de IA. Ao mesmo tempo, apenas 60% consideram suas organizações preparadas para utilizar a tecnologia.
Essa diferença pode gerar uma espécie de adoção informal. O funcionário encontra uma ferramenta, testa, descobre uma forma de utilizá-la e passa a incorporá-la à rotina antes mesmo de existir uma política estruturada dentro da empresa.

A tecnologia entrou antes das regras
O cenário traz uma questão que vai além de qual ferramenta comprar. Se profissionais utilizam IA para produzir textos, organizar informações, pesquisar, analisar dados ou acelerar tarefas, a empresa precisa definir também o que pode ou não ser feito com essas ferramentas.
O levantamento mostra que 75% dos entrevistados percebem contribuição positiva da IA para o próprio trabalho e para os resultados da empresa. Por outro lado, 42% concordam que a tecnologia representa uma ameaça aos empregos e pode reduzir as vagas disponíveis.
O comportamento diante da IA, portanto, não é de entusiasmo absoluto nem de rejeição. É uma mistura de utilidade, curiosidade e receio. E essa combinação tende a acompanhar a tecnologia por algum tempo.
O novo desafio é transformar uso em cultura
Entre os líderes, 70% esperam ser cobrados para fazer suas equipes utilizarem IA no dia a dia. Mas apenas 25% dizem estar muito preparados para conduzir essa transformação.
Isso coloca gestores diante de uma mudança que não pode ser resolvida apenas com uma assinatura de software. É necessário definir processos, orientar equipes, discutir segurança de dados, estabelecer limites e, principalmente, explicar onde a tecnologia realmente acrescenta valor.
A pesquisa sugere que a próxima etapa da adoção da IA será menos sobre convencer as pessoas a experimentar a tecnologia e mais sobre organizar o uso que já acontece espontaneamente. O funcionário já começou a incorporar a IA à rotina. Agora, a empresa precisa decidir como transformar esse movimento em uma prática segura, produtiva e coerente com sua cultura.