Por mais de uma década, o smartphone concentrou boa parte da vida digital. É nele que o usuário acessa mensagens, mapas, música, câmeras, pagamentos, redes sociais e assistentes digitais. Agora, as empresas de tecnologia estão tentando colocar parte dessas funções em um objeto que já faz parte do cotidiano: os óculos.
O movimento ganhou força no Meta Connect 2026, realizado nesta semana. A Meta apresentou os Ray-Ban Meta Audio, seus primeiros óculos exclusivamente de áudio, além da terceira geração dos Ray-Ban Meta e dos Meta VR Glasses. A empresa também anunciou que pretende chegar ao fim de 2026 com mais de 100 opções de óculos entre as marcas Ray-Ban, Oakley e Meta Glasses.
A estratégia vai além de criar um novo acessório. Os óculos passam a funcionar como uma interface para acessar serviços sem precisar tirar o celular do bolso. A Meta já oferece recursos como chamadas, música, tradução de conversas, informações sobre lugares e interação por voz. Com a integração do agente pessoal Muse, a empresa pretende ampliar ainda mais essa experiência.

Estamos construindo óculos com IA para todas as pessoas. | Meta, ao apresentar a nova geração de dispositivos no Connect 2026
A tecnologia quer desaparecer
O principal movimento dessa nova geração de dispositivos é justamente fazer com que a tecnologia fique menos visível. Em vez de abrir um aplicativo para consultar uma informação, o usuário pode fazer uma pergunta em voz alta. Em vez de pegar o celular para receber uma orientação, pode ter informações diretamente no campo de visão, dependendo do modelo.
Os novos Ray-Ban Meta Audio seguem uma lógica ainda mais simples. Sem câmera, eles concentram a experiência em áudio, chamadas e interação com assistentes. Segundo a Meta, o modelo pesa 43 gramas e oferece até 12 horas de uso com uma carga, além de até 48 horas adicionais com o estojo.
Já os modelos com recursos visuais avançam em outra direção. A Meta anunciou novas funções de navegação para seus óculos com display, incluindo orientações para bicicleta e transporte público, permitindo que o usuário consulte informações sem precisar olhar para a tela do telefone.
Isso abre espaço para uma mudança importante no relacionamento entre pessoas e serviços. Restaurantes, lojas, aplicativos de mobilidade, plataformas de entretenimento e empresas de atendimento podem passar a disputar espaço em uma interface que não é mais uma tela de bolso, mas um dispositivo usado durante toda a rotina.

O problema agora é a privacidade
Quanto mais os óculos se aproximam de uma câmera e de um assistente pessoal permanente, maior fica a discussão sobre privacidade. A Reuters apontou nesta semana que o avanço dos dispositivos vestíveis vem acompanhado de preocupações com gravações sem consentimento, uso indevido das câmeras e dificuldade de perceber quando alguém está sendo filmado.
A questão ajuda a explicar por que a chegada de modelos sem câmera é relevante. Os Ray-Ban Meta Audio eliminam justamente uma das funcionalidades que mais levantam dúvidas sobre o uso dos óculos em ambientes públicos. O dispositivo mantém áudio, chamadas e interação com assistente, mas não registra imagens.
Para empresas, a discussão vai além do produto. Se os óculos se tornarem uma nova plataforma digital, surgirá também uma nova disputa por desenvolvimento de aplicativos, publicidade, serviços contextuais e experiências que funcionem sem depender de uma tela.
O smartphone, portanto, não está necessariamente desaparecendo. A corrida atual aponta para outra possibilidade: ele pode deixar de ser a única interface central da vida digital. Os óculos inteligentes estão sendo testados justamente como uma camada que acompanha o usuário em vez de exigir que ele pare o que está fazendo para consultar uma tela.