O movimento está desaparecendo de pequenos momentos do cotidiano. Subir escadas, caminhar até algum lugar, levantar da cadeira ou simplesmente passar menos tempo sentado são comportamentos que foram sendo substituídos pela conveniência. Uma nova pesquisa global da ASICS mostra que, no Brasil, 59% dos adultos estão abaixo dos 150 minutos semanais de atividade física recomendados, enquanto 35% fazem menos de 30 minutos por semana.
O levantamento, realizado com 34 mil adultos em 31 mercados, aponta ainda uma diferença importante entre as gerações. Entre brasileiros de 18 a 24 anos, 36,8% estão na faixa considerada “Ameaçada”, com menos de 30 minutos de atividade física semanal. O grupo também apresentou a menor pontuação de estado mental entre as faixas etárias analisadas.
A pesquisa não estabelece que a falta de movimento seja a causa direta de problemas de saúde mental. Mas encontrou uma associação relevante: no Brasil, pessoas classificadas como “Ativas” apresentaram 11 pontos a mais no índice de estado mental do que aquelas classificadas como “Ameaçadas”.
O movimento é uma parte fundamental da saúde física e mental. | Brendon Stubbs, professor do King’s College London e da University of Vienna.

Quando ficar parado vira padrão
Um dos dados mais interessantes da pesquisa está menos relacionado à academia e mais à rotina. A pessoa média no Brasil passa 88% do tempo acordada sem se movimentar. A conveniência, segundo o estudo, vem tornando o movimento cada vez mais opcional.
Isso muda a discussão sobre atividade física. Em vez de pensar apenas em uma hora reservada para treinar, o comportamento cotidiano também passa a importar. Caminhadas curtas, deslocamentos a pé, pausas durante o trabalho e atividades domésticas podem representar oportunidades de interromper longos períodos de inatividade.
A pesquisa também aponta que 64% das pessoas ouvidas globalmente consideram que a vida moderna facilita passar um dia inteiro praticamente sem se movimentar. O problema, portanto, não está apenas na falta de disposição individual, mas em um ambiente que exige cada vez menos movimento para realizar tarefas.

Os jovens estão entre os mais parados
No Brasil, o grupo de 18 a 24 anos chama atenção. Além dos 36,8% que fazem menos de 30 minutos de atividade por semana, esses jovens registraram 61 pontos no índice de estado mental, o menor resultado entre todas as faixas etárias analisadas.
A associação entre movimento e bem-estar não significa que simplesmente caminhar resolva questões complexas de saúde mental. O dado aponta, porém, para uma dimensão frequentemente esquecida: o corpo também participa da forma como atravessamos o dia.
A recomendação internacional de 150 minutos semanais pode parecer distante para quem tem uma rotina sedentária. Por isso, a própria pesquisa chama atenção para a possibilidade de começar com períodos menores. A proposta apresentada pela ASICS é reservar ao menos 15 minutos do dia para alguma atividade.
Talvez o problema não seja falta de tempo
A grande questão levantada pelo estudo é comportamental. Durante décadas, o movimento foi tratado como algo que precisava de um horário específico, roupa adequada e um objetivo definido. A rotina contemporânea, por outro lado, tornou possível trabalhar, comprar, estudar, conversar e se divertir sem quase sair do lugar.
Recuperar o movimento pode significar justamente recolocá-lo em atividades que já existem. Uma caminhada durante uma ligação, uma escada em vez do elevador ou alguns minutos longe da cadeira não substituem necessariamente uma rotina de exercícios, mas podem interromper o padrão de imobilidade.
O alerta desta semana não é que todo mundo precisa virar atleta. É mais simples: um corpo que passa quase todo o dia parado precisa encontrar espaços para voltar a se mover. E, segundo os dados da pesquisa, esses pequenos espaços podem ter relação não apenas com o corpo, mas também com a maneira como nos sentimos.