A vacinação depende de mais fatores do que a disponibilidade de doses. Mesmo quando um imunizante está acessível, dúvidas sobre segurança, desinformação, experiências anteriores e dificuldades para chegar aos serviços de saúde podem influenciar a decisão de se vacinar.
Um estudo publicado em 12 de outubro de 2026 na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde analisou evidências de 48 revisões sistemáticas sobre estratégias para enfrentar a hesitação vacinal. O trabalho foi elaborado por pesquisadores de instituições como Fiocruz, Ministério da Saúde e universidades brasileiras, com o objetivo de oferecer subsídios para políticas de imunização.
A análise identificou cinco frentes de atuação: comunicação adaptada a diferentes públicos, formação continuada dos profissionais de saúde, ampliação do acesso, enfrentamento da desinformação e estratégias específicas para gestantes. A principal conclusão é que essas ações tendem a funcionar melhor quando combinadas, considerando as características de cada população.
O enfrentamento efetivo da hesitação vacinal demanda estratégias combinadas. | Conclusão do estudo de Ana Paula da Costa Marques e colaboradores — artigo publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde

A confiança depende de mais do que campanhas
Uma campanha pode explicar a eficácia de uma vacina e esclarecer possíveis efeitos adversos, mas a mensagem precisa chegar ao público de forma compreensível. Linguagem acessível, diálogo com lideranças comunitárias e respostas transparentes às dúvidas ajudam a tornar a informação mais próxima da realidade das pessoas.
A formação dos profissionais também importa. Equipes preparadas para conversar sobre receios, explicar benefícios e identificar informações falsas podem contribuir para que uma dúvida não se transforme em abandono do calendário vacinal.
A revisão científica ainda destaca a necessidade de reduzir obstáculos práticos. Horários restritos, distância dos postos e dificuldade para conciliar o atendimento com trabalho ou estudo podem prejudicar a adesão mesmo entre pessoas favoráveis à imunização.

A prevenção precisa caber na vida real
A desinformação é uma parte do problema, mas enfrentá-la exige mais do que desmentir publicações nas redes sociais. É preciso compreender por que determinadas mensagens encontram espaço, quais grupos são mais vulneráveis e quais canais inspiram confiança.
O estudo também chama atenção para a vacinação durante a gestação, período em que a orientação profissional pode ser decisiva para esclarecer dúvidas e proteger mãe e bebê. A recomendação é integrar esse acompanhamento às demais estratégias de imunização.
A revisão não mede quantos brasileiros hesitam em se vacinar nem estima o efeito isolado de cada intervenção. Seu valor está em reunir evidências e mostrar que a adesão depende de uma combinação de confiança, comunicação e acesso. Para ampliar a cobertura vacinal, não basta disponibilizar imunizantes: é necessário criar condições para que as pessoas compreendam sua importância e consigam recebê-los.