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O brasileiro quer cuidar do coração. O desafio começa depois da intenção
Saúde
30.09.2026

O brasileiro quer cuidar do coração. O desafio começa depois da intenção

Pesquisa mostra que 63% dos brasileiros já mudaram hábitos pensando na saúde cardiovascular, mas conhecimento e prática ainda não caminham no mesmo ritmo

Cuidar do coração parece ter entrado no radar dos brasileiros. Uma pesquisa da Ipsos-Ipec, encomendada pela Novartis e divulgada na semana do Dia Mundial do Coração, mostra que 63% dos entrevistados afirmam ter mudado algum hábito pensando na própria saúde cardiovascular. O levantamento ouviu 2 mil pessoas de diferentes regiões e classes sociais do país.

Entre as principais mudanças relatadas, a alimentação mais saudável aparece em primeiro lugar, citada por 68% dos entrevistados que adotaram novos hábitos. A prática de atividade física vem na sequência, mencionada por 64%. Outros 44% dizem ter adotado medidas para reduzir o estresse, enquanto 36% passaram a realizar exames periódicos e 13% deixaram de fumar.

O dado mais interessante, porém, está no espaço entre a intenção e a continuidade. A parcela que afirma ter mudado hábitos caiu de 64% em 2025 para 63% em 2026. Ao mesmo tempo, o levantamento mostra que ainda existem lacunas importantes no entendimento sobre fatores de risco, principalmente quando o assunto é colesterol e prevenção do infarto.

Entender os resultados dos exames e conversar com o médico sobre os fatores de risco é uma parte importante desse cuidado. | Maria Cristina Izar, cardiologista e professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Mudar o hábito é mais difícil do que reconhecer sua importância

A pesquisa mostra que a alimentação e a atividade física já aparecem como escolhas associadas à prevenção para uma parcela significativa da população. O desafio está em transformar essas decisões em comportamentos sustentáveis, capazes de permanecer depois do período de preocupação ou de uma campanha de conscientização.

A redução do estresse também ganhou espaço: 44% dos entrevistados que mudaram hábitos dizem ter adotado alguma prática com esse objetivo. O dado acompanha uma visão mais ampla da saúde cardiovascular, que considera não apenas alimentação e exercícios, mas também fatores relacionados à rotina e ao estilo de vida.

O próprio tema escolhido pela World Heart Federation para o Dia Mundial do Coração de 2026 reforça essa mudança de perspectiva. Com a campanha “Don’t Miss a Beat”, a entidade chama atenção para doenças cardiovasculares que podem permanecer pouco percebidas e incentiva mudanças práticas, como mais movimento, alimentação adequada e atenção aos fatores de risco.

Conhecer o risco não significa necessariamente compreendê-lo

O levantamento também encontrou um paradoxo na relação dos brasileiros com o colesterol. Embora 78% afirmem já ter ouvido falar em LDL, apenas 54% reconhecem que níveis elevados estão associados a maior risco de infarto. Isso significa que pouco mais da metade consegue transformar o conhecimento sobre o chamado “colesterol ruim” em uma compreensão efetiva do risco.

A dificuldade aparece também na relação com os exames. Entre os entrevistados que não costumam levar o resultado do colesterol ao médico, 57% afirmam interpretar os números por conta própria a partir das referências apresentadas no próprio exame. Para especialistas, essa leitura isolada pode não representar adequadamente o risco cardiovascular de uma pessoa, que depende de diferentes fatores.

O contraste ajuda a explicar por que prevenção não se resume a acumular informação. Saber o que é LDL, conhecer alguém que já teve um infarto ou ouvir recomendações sobre atividade física pode despertar preocupação, mas o resultado mais importante aparece quando esse conhecimento muda decisões concretas e passa a fazer parte da rotina.

A prevenção começa antes do susto

O levantamento mostra que 68% dos brasileiros conhecem alguém que já sofreu um infarto e que 77% concordam, total ou parcialmente, que a doença pode ser prevenida. A percepção de que o problema não está restrito às pessoas mais velhas também é ampla: 76% discordam da ideia de que o infarto atinja apenas quem tem mais de 60 anos.

Esses números ajudam a entender uma mudança importante no comportamento: o coração deixou de ser uma preocupação associada apenas à doença instalada. Cada vez mais, alimentação, movimento, controle de fatores de risco e acompanhamento médico aparecem como parte de uma estratégia que começa antes do primeiro sintoma.

O desafio, agora, é fazer com que a intenção sobreviva à rotina. Porque decidir caminhar mais, melhorar a alimentação, controlar o estresse ou acompanhar os exames pode ser o primeiro passo. A diferença está em transformar esse primeiro passo em hábito, antes que o corpo precise transformar prevenção em urgência.

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