Sentir-se saudável nem sempre significa estar protegido dos principais fatores de risco. É o que revela uma pesquisa realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. Entre os 2.015 brasileiros entrevistados, 59% avaliaram a própria saúde como ótima ou boa, enquanto os dados declarados de peso e altura indicaram que 63% estavam acima do peso, segundo os critérios utilizados no levantamento.
O levantamento também encontrou outro ponto de atenção: 42% dos entrevistados afirmaram nunca praticar atividade física. Entre aqueles que se exercitam, a frequência média foi de 2,4 dias por semana. O estudo relaciona esses hábitos a fatores que podem influenciar o risco de doenças crônicas, inclusive diferentes tipos de câncer.
A pesquisa foi realizada presencialmente entre 25 e 30 de junho, com pessoas a partir de 16 anos nas 27 unidades da Federação. A amostra teve margem de erro de dois pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%.
O maior risco do brasileiro, portanto, não está no que ele sente, e sim no que ele não percebe. | Victor Piana, patologista e CEO do A.C.Camargo Cancer Center, sobre a diferença entre percepção de saúde e fatores de risco identificados pela pesquisa.

O corpo pode dar sinais que a percepção não acompanha
O excesso de peso aparece entre os principais contrastes identificados pelo levantamento. Pelos critérios da Organização Mundial da Saúde utilizados na pesquisa, 26% dos entrevistados estavam na faixa de obesidade e 37% na de sobrepeso, totalizando 63% acima do peso.
O dado não significa que 63% dos brasileiros tenham necessariamente essa condição, já que se trata do resultado de uma pesquisa amostral com informações declaradas pelos participantes. Ainda assim, o levantamento chama atenção para a relação entre hábitos cotidianos e prevenção de doenças.
Segundo Victor Piana, o excesso de peso é reconhecido como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, incluindo tumores de intestino, mama, pâncreas e esôfago. A atividade física também aparece como uma ferramenta de prevenção, além de contribuir para o controle do peso e para a resposta do organismo durante e depois de tratamentos oncológicos.

Alimentação mostra outro lado do comportamento
A alimentação aparece como um dos pontos positivos do levantamento. 66% dos entrevistados afirmaram consumir alimentos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos e carnes, seis dias ou mais por semana. Já bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras apareceram, em média, cerca de dois dias por semana.
O problema, porém, não é apenas uma questão de escolha. Entre aqueles que disseram ter dificuldade para manter uma alimentação adequada, 29% apontaram o preço de carnes frescas, frutas e vegetais, enquanto 21% citaram falta de tempo e cansaço da rotina. Entre pessoas com renda de até um salário mínimo, o preço aparece como obstáculo com maior frequência.
O estudo também encontrou uma diferença curiosa na percepção relacionada ao álcool. Entre os entrevistados que disseram consumir bebidas alcoólicas cinco a sete dias por semana, 64% avaliaram a própria saúde como ótima ou boa. Entre os que não bebem, essa percepção foi de 58%. O resultado representa a percepção dos participantes, não uma avaliação clínica de sua saúde.
A principal mensagem do levantamento está justamente nessa diferença entre sentir-se bem e cuidar da saúde de forma preventiva. Peso, sedentarismo, alimentação, álcool e tabagismo podem permanecer silenciosos por anos, enquanto a percepção individual continua positiva. Para a prevenção, a questão passa menos pela sensação momentânea e mais pela construção de hábitos ao longo do tempo.