A escolha de um carro novo está deixando de ser uma disputa simples entre marcas. O consumidor brasileiro parece cada vez mais disposto a olhar para o conjunto da oferta: qualidade, desempenho, tecnologia, segurança e custo-benefício passaram a disputar espaço na decisão.
É o que mostra a edição 2026 do Global Automotive Consumer Study, da Deloitte, que ouviu 1.000 consumidores brasileiros dentro de uma amostra global de 28.553 pessoas em 27 países. No Brasil, qualidade aparece como o principal atributo na troca de veículo, citada por 65% dos entrevistados, seguida por desempenho, com 56%, e preço, com 44%.
O comportamento também revela uma mudança na fidelidade. O brasileiro está mais aberto a experimentar novas marcas e utiliza redes sociais e influenciadores como fonte de informação com mais intensidade do que a média global. No país, 44% recorrem a esses canais durante a pesquisa de compra.
A mudança de comportamento do consumidor tem transformado e demandado novas soluções da indústria automotiva. | Paulo de Tarso, sócio-líder da indústria de Consumo da Deloitte Brasil

O preço continua importante. Só não decide sozinho
O dado não significa que o preço deixou de importar. Pelo contrário. Ele aparece entre os principais critérios da escolha, mas divide espaço com atributos que ajudam o consumidor a perceber valor no produto.
Essa mudança é relevante porque automóveis são compras de alto envolvimento. A decisão envolve orçamento, confiança, uso cotidiano, manutenção e expectativa de permanência. Por isso, uma diferença de preço pode perder peso quando o consumidor entende que determinada configuração entrega mais para a rotina.
A pesquisa também mostra que qualidade e desempenho permanecem entre os principais fatores considerados pelos brasileiros, reforçando uma lógica de compra que vai além da comparação direta de valores.

O consumidor pesquisa antes de chegar à loja
A jornada começa cada vez mais antes da concessionária. Redes sociais e influenciadores ganharam espaço na etapa de pesquisa, ao mesmo tempo em que a experiência presencial continua importante para a decisão.
Segundo a Deloitte, 58% dos brasileiros visitam concessionárias para pesquisar um veículo, enquanto 44% utilizam redes sociais e influenciadores. Negociar, ter preços transparentes e experimentar fisicamente o carro continuam sendo elementos centrais para a escolha final.
Isso cria um consumidor mais informado e, ao mesmo tempo, menos dependente da narrativa oficial das marcas. Antes de ouvir o vendedor, ele já chega com referências de outros usuários, avaliações e comparações.
O carro virou um pacote de experiências
A transformação também aparece na tecnologia embarcada. Para 76% dos brasileiros, o ecossistema tecnológico do veículo teria importância igual ou superior à do smartphone caso oferecesse recursos como assistência avançada ao motorista, serviços conectados e funções adicionais de conforto.
A pesquisa mostra ainda que 73% consideram que conexões de software aumentariam sua disposição para permanecer mais tempo com o mesmo veículo. A tecnologia passa, portanto, a influenciar não apenas a compra, mas também a vida útil percebida do produto.
O resultado é uma mudança de lógica. O consumidor não está necessariamente procurando “a melhor marca”. Está procurando a combinação que faça mais sentido para sua vida. E, em um mercado no qual tecnologia, experiência e custo-benefício caminham juntos, essa mudança pode redefinir a disputa entre fabricantes.