A inadimplência das famílias brasileiras recuou em setembro, oferecendo um sinal positivo para o orçamento doméstico. Mas a redução dos atrasos não significa que a pressão financeira tenha desaparecido: outros indicadores mostram que parte das famílias continua comprometendo uma parcela elevada da renda com dívidas.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontou que 29,6% das famílias tinham contas em atraso em setembro de 2026, ante 29,9% em agosto. Foi o menor nível desde março. A proporção de famílias endividadas também caiu pela primeira vez no ano, de 82% para 81,7%.
Apesar da melhora, o tempo médio de atraso aumentou para 65,3 dias, o maior patamar desde novembro de 2024. As dívidas vencidas há mais de 90 dias já representavam 48,9% das contas em atraso, indicando que uma parcela dos consumidores enfrenta dificuldades mais persistentes para regularizar sua situação.
A redução do endividamento e da inadimplência dá um pequeno respiro para as famílias. | José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac

Estar endividado não é o mesmo que estar inadimplente
A diferença entre esses indicadores ajuda a compreender os números. Uma família endividada possui compromissos financeiros, como parcelas de compras, empréstimos ou faturas de cartão, mesmo quando paga tudo em dia. A inadimplência acontece quando há contas vencidas e não pagas.
Por isso, a redução do número de famílias com atrasos pode ocorrer ao mesmo tempo que o orçamento permanece pressionado. As pessoas podem conseguir pagar as parcelas, mas continuar com pouco dinheiro disponível para despesas inesperadas ou novas necessidades.
Em setembro, 19,4% das famílias disseram comprometer mais da metade da renda com dívidas, segundo a Peic. Esse dado reforça que a capacidade de pagamento não depende apenas de estar ou não em atraso, mas também de quanto sobra depois dos compromissos financeiros.

Dívidas antigas tornam a recuperação mais lenta
O tempo médio de atraso é outro indicador importante porque mostra a duração das dificuldades. Quando uma conta permanece vencida por muitos meses, podem surgir juros, multas e restrições que tornam a regularização mais difícil.
A CNC observou que 48,9% das contas vencidas estavam atrasadas havia mais de 90 dias. Isso significa que a queda na proporção geral de inadimplentes ainda convive com um grupo relevante de consumidores que precisa lidar com débitos antigos.
As diferenças também aparecem por renda. Em setembro, 38,5% das famílias que recebiam até três salários mínimos tinham contas em atraso, percentual superior ao observado nas faixas de renda mais elevadas. A melhora geral, portanto, não acontece de maneira uniforme.
O alívio precisa virar capacidade de pagamento
Uma queda na inadimplência é positiva, mas sua continuidade depende de fatores como renda, custo do crédito e possibilidade de negociar dívidas. A própria CNC destaca que condições mais adequadas de financiamento são importantes para consolidar a melhora.
Para as famílias, acompanhar o valor total dos compromissos, distinguir despesas essenciais das adiáveis e conhecer o custo efetivo de cada dívida ajuda a entender quais pagamentos exercem maior pressão sobre o orçamento. A renegociação pode ser útil quando oferece condições compatíveis com a capacidade de pagamento.
Os dados de setembro mostram um cenário misto: menos famílias estavam inadimplentes, mas os atrasos duravam mais tempo e parte dos consumidores continuava comprometendo uma fatia elevada da renda. O alívio começa a aparecer nos indicadores; sua consolidação depende de conseguir transformar a redução dos atrasos em estabilidade financeira duradoura.