Uma transportadora pode ampliar o volume de cargas e, ao mesmo tempo, apresentar um balanço pressionado. A compra de caminhões, o aumento das despesas operacionais e os prazos para receber pelos fretes afetam os resultados financeiros, mesmo quando a empresa está conquistando contratos. Para quem concede crédito, essa combinação pode dificultar a avaliação da capacidade de pagamento.
A Sem Parar Empresas quer usar informações que já reúne na operação para reduzir essa dificuldade. Conhecida pelas soluções de pagamento automático em pedágios, a companhia pretende complementar a análise financeira tradicional com dados sobre a atividade das frotas. Segundo reportagem do NeoFeed publicada em outubro de 2026, a empresa reúne informações de aproximadamente 1,3 milhão de veículos conectados e atende mais de 270 mil empresas.
A estratégia abre caminho para diversificar os negócios para além das tags. A empresa já oferece antecipação de recebíveis com garantia vinculada ao Conhecimento de Transporte Eletrônico (CT-e) e identifica um mercado potencial superior a R$ 1 bilhão em serviços financeiros. Esse valor representa uma oportunidade estimada pela companhia, e não uma receita já obtida com crédito.
Conseguimos tomar mais risco do que um banco tradicional, porque temos a capacidade de ver mais informações e colocar inteligência nesse modelo de crédito. | Wagner Gramigna, CEO da Sem Parar Empresas.

Quando os dados operacionais complementam o balanço
A análise tradicional de crédito considera fatores como demonstrações financeiras, endividamento e histórico de pagamentos. No transporte rodoviário, porém, os resultados podem oscilar conforme os contratos de frete e os investimentos em frota. Uma empresa que compra caminhões para atender novos clientes pode pressionar temporariamente seu caixa, embora esteja ampliando sua capacidade operacional.
É nesse intervalo que os dados alternativos podem acrescentar informação. Registros de utilização da frota, despesas e movimentações associadas à atividade ajudam a construir uma visão complementar do negócio. A pesquisa The Impact of Fintech Lending on Credit Access for U.S. Small Businesses, elaborada por Giulio Cornelli, Jon Frost, Leonardo Gambacorta e Julapa Jagtiani, identificou que modelos de crédito de fintechs que utilizam informações alternativas conseguiram prever inadimplência com maior precisão do que algumas avaliações tradicionais em sua amostra de pequenas empresas americanas. Os resultados, contudo, não garantem o mesmo desempenho em todos os mercados ou modelos de análise.
O potencial está em avaliar melhor empresas que poderiam ter dificuldade para obter financiamento pelos critérios convencionais. Os pesquisadores resumem essa possibilidade ao apontar que plataformas de crédito fintech podem ampliar o acesso de pequenas empresas menos atendidas pelos credores tradicionais, inclusive com custos menores. A aplicação desses modelos exige dados confiáveis, monitoramento do risco e atenção à proteção das informações, especialmente quando há tratamento de dados pessoais.

A oportunidade depende da qualidade da análise
A antecipação de recebíveis ajuda transportadoras a reduzir o intervalo entre o pagamento de despesas, como combustível e salários, e o recebimento pelo serviço prestado. Ao usar o CT-e como garantia, a Sem Parar Empresas busca conectar uma necessidade financeira concreta a uma atividade que já acompanha. A solução pode reduzir a pressão sobre o capital de giro, embora não elimine o risco de atraso ou inadimplência.
A diversificação também tem um objetivo comercial: aumentar a receita gerada por cliente sem depender exclusivamente da entrada de novos veículos na base. A empresa mantém a atuação com pedágios e gestão de frotas, enquanto tenta ampliar a participação de crédito, pagamentos e outros serviços financeiros.
O desafio será comprovar que os dados operacionais melhoram as decisões e ajudam a equilibrar a expansão da carteira com a inadimplência. Transformar informação em crédito exige mais do que acumular dados: é preciso demonstrar que eles permitem avaliar melhor o risco e financiar operações de forma sustentável.