A ideia de reduzir o consumo de carne deixou de estar restrita a pequenos grupos identificados com o veganismo. No Brasil, a mudança começa a aparecer como uma possibilidade considerada por uma parcela muito maior da população, inclusive entre pessoas que não pretendem abandonar completamente a proteína animal.
Segundo pesquisa Datafolha realizada em 2025 e repercutida pelo Jornal da USP, 74% dos brasileiros consideram reduzir ou eliminar o consumo de carne. Outros 22% afirmam já ter tentado parar de consumir o produto, enquanto 7% se declaram veganos.
Os números não significam que o Brasil esteja se tornando majoritariamente vegano. A própria análise da USP aponta que o movimento mais consistente pode estar em outra direção: reduzir a presença das proteínas animais sem necessariamente excluí-las. É uma mudança menos radical e, justamente por isso, potencialmente mais ampla.
Esses modelos tendem a ser mais facilmente aderidos pela maior parte da população. | Ana Rita Nobre, nutricionista e doutoranda em Psicobiologia na USP

A mudança pode ser mais flexível do que radical
Entre os caminhos considerados pelos especialistas estão as dietas ovolactovegetarianas e flexitarianas. Na primeira, carnes são retiradas, mas ovos, leite e derivados permanecem. Na segunda, a proposta é reduzir o consumo de carne e ampliar a presença de vegetais, legumes, frutas e grãos integrais.
Esse formato ajuda a explicar por que a transformação pode avançar mesmo entre consumidores que não se identificam com o veganismo. A mudança não precisa começar pela exclusão completa. Pode aparecer no número de refeições sem carne, na substituição de ingredientes ou na frequência com que determinados produtos entram no carrinho.
O movimento já produz reflexos no mercado. Segundo a USP, restaurantes e indústrias vêm ampliando opções sem ingredientes de origem animal para atender um consumidor que passou a demonstrar maior interesse por alternativas vegetais.

Saúde também exige planejamento
Reduzir carne não significa automaticamente adotar uma alimentação mais equilibrada. O resultado depende do que entra no lugar dela. A substituição por alimentos variados e nutritivos é diferente de simplesmente trocar produtos de origem animal por ultraprocessados vegetais.
A nutricionista Ana Rita Nobre destaca que dietas com restrição de produtos animais precisam ser planejadas e diversificadas para evitar deficiências nutricionais. Em alguns casos, pode haver necessidade de suplementação e acompanhamento profissional.
Isso coloca a mudança de comportamento em uma perspectiva mais interessante. O debate não é apenas sobre comer carne ou não comer carne, mas sobre ampliar a variedade alimentar e tomar decisões mais conscientes sobre aquilo que ocupa o prato.
O novo hábito pode estar no meio do caminho
A força dessa tendência talvez esteja justamente na possibilidade de adaptação. Uma pessoa pode reduzir a frequência da carne sem se tornar vegetariana, experimentar novos alimentos sem abandonar receitas tradicionais e mudar a proporção dos ingredientes aos poucos.
Para o mercado, isso cria uma oportunidade que vai além do segmento vegano. Restaurantes, supermercados e indústrias passam a disputar um consumidor que busca variedade, mas ainda deseja praticidade, sabor e familiaridade.
O prato brasileiro pode não estar caminhando para uma ruptura. Pode estar caminhando para uma nova composição. E, quando uma mudança deixa de depender de uma identidade alimentar específica e passa a caber na rotina de mais pessoas, ela deixa de ser nicho e começa a virar comportamento.