Em 2022, a Creditas chegou a consumir cerca de US$ 3 milhões em caixa por dia. A fintech, fundada por Sergio Furio, investia pesadamente em marketing para conquistar clientes e praticava preços baixos para acelerar sua expansão. O modelo ajudou a impulsionar o crescimento, mas também elevou as despesas em um momento de mudança nas condições financeiras.
A alta dos juros tornou essa estratégia mais difícil de sustentar. Para empresas que atuam no mercado de crédito, o custo de captação influencia as condições oferecidas aos clientes e a rentabilidade das operações. Quando o dinheiro fica mais caro e o acesso a investimentos diminui, negócios que dependem de capital para financiar uma expansão acelerada precisam rever suas prioridades.
Furio decidiu, então, mudar o rumo da companhia. Em vez de buscar crescimento a qualquer custo, a Creditas passou a priorizar margens e redução da queima de caixa. A empresa registrou R$ 2,19 bilhões em receita em 2025, mas o faturamento, isoladamente, não permite concluir se a operação alcançou rentabilidade ou geração de caixa sustentável.
Precisávamos, portanto, mudar a estratégia, focar em margem e cortar a queima de caixa. | Sergio Furio, fundador e CEO da Creditas.

O custo do dinheiro muda a conta do crédito
A mudança de estratégia ocorreu em um período de aperto monetário no Brasil, quando a elevação da taxa básica de juros encareceu o financiamento e aumentou a exigência de retorno sobre os investimentos. O efeito vai além das empresas endividadas: também alcança negócios que precisam captar recursos para emprestar, adquirir clientes ou financiar a própria expansão.
Os dados do Banco Central mostram como o ambiente de crédito permaneceu desafiador. Em 2025, o saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional cresceu 10,2%, abaixo dos 11,5% registrados em 2024. No mesmo período, a taxa média de juros das novas concessões chegou a 32,4% ao ano, com aumento de 3,9 pontos percentuais. Esses números abrangem o sistema financeiro como um todo, não apenas a Creditas.
O impacto dos juros sobre as empresas também aparece na capacidade de repassar custos. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, afirmou à CNN Brasil: “Quando a taxa de juros é elevada, o custo final aumenta e nem sempre as empresas conseguem repassar essa alta do custo financeiro para o preço final”. A avaliação ajuda a explicar por que o crescimento da carteira de crédito precisa ser acompanhado pela análise do custo de financiamento e do risco assumido.

Faturamento não garante rentabilidade
No caso da Creditas, a revisão da estratégia significou buscar uma expansão mais compatível com a capacidade financeira da operação. A empresa manteve a ambição de crescer, mas passou a dar mais peso à margem e à eficiência, em vez de depender apenas de investimentos elevados em aquisição de clientes. Segundo Furio, a companhia também decidiu congelar novas vagas naquele período, evitando uma rodada de demissões em massa.
Essa mudança evidencia uma distinção importante para avaliar empresas de tecnologia e instituições financeiras: receita é o dinheiro gerado pelas operações, enquanto lucro e fluxo de caixa mostram outras dimensões da saúde financeira. Em uma fintech de crédito, também é necessário acompanhar o custo de captação, a inadimplência, as despesas operacionais e o retorno obtido sobre o capital empregado.
A trajetória da Creditas ilustra, portanto, como o cenário econômico pode obrigar empresas em expansão a rever suas prioridades. Quando o capital é abundante, acelerar a conquista de mercado pode parecer vantajoso. Com juros elevados e financiamento mais restrito, a capacidade de transformar vendas em resultados sustentáveis ganha ainda mais importância. O desafio deixa de ser apenas crescer e passa a ser financiar esse crescimento sem comprometer o futuro do negócio.