Pacientes adultos com dengue que chegam às unidades de terapia intensiva da rede pública apresentam quadros mais graves do que os internados em hospitais privados, segundo estudo publicado em agosto de 2026 no Journal of Critical Care. O resultado chama atenção para as diferenças observadas durante o atendimento de uma doença que pode evoluir para complicações potencialmente fatais.
A pesquisa foi realizada por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Os autores analisaram internações de adultos entre 2015 e 2024, utilizando dados do registro UTIs Brasileiras e do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, disponível no Datasus.
No registro UTIs Brasileiras, aproximadamente um em cada cinco pacientes atendidos na rede pública precisou ser intubado nas primeiras 24 horas de UTI, ante cerca de quatro em cada cem pacientes da rede privada, conforme reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 9 de outubro de 2026. Os pesquisadores ressaltam que a análise identificou diferenças na gravidade, mas não mediu diretamente quanto tempo os pacientes esperaram até chegar à terapia intensiva.
O que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados. | Luciano Azevedo, médico intensivista e autor principal do estudo

As diferenças aparecem no suporte necessário
Além da intubação, o estudo identificou diferenças na necessidade de intervenções nas primeiras 24 horas de terapia intensiva. No registro UTIs Brasileiras, 22,4% dos pacientes da rede pública precisaram de medicamentos para sustentar a pressão arterial, contra 5,3% dos internados na rede privada.
A necessidade de hemodiálise também foi mais frequente entre os pacientes da rede pública: 4,7%, ante 1,3% na rede privada. Esses procedimentos podem indicar comprometimentos importantes da circulação e da função renal, reforçando a gravidade clínica observada no grupo analisado.
A pesquisa identificou ainda maior risco de morte entre pacientes idosos e entre aqueles que necessitaram de medicamentos para manter a pressão. Esses achados se referem a pessoas internadas em UTIs e não representam automaticamente o risco de morte de todos os brasileiros infectados pela dengue.

O acesso à terapia intensiva é uma hipótese, não uma conclusão
Os pesquisadores levantam a possibilidade de que diferenças nos caminhos percorridos até o hospital e na disponibilidade de leitos contribuam para os resultados. Pessoas atendidas na rede pública podem passar por unidades básicas de saúde e unidades de pronto atendimento antes de chegar a um hospital com estrutura intensiva.
Entretanto, o estudo não mediu o intervalo entre o aparecimento dos sintomas e a internação na UTI. Por isso, não permite concluir que uma demora no atendimento seja a causa direta da maior gravidade observada.
A análise também usou bases de dados distintas, que não devem ser somadas, pois um mesmo paciente pode aparecer em mais de um registro. Essa limitação metodológica é importante para interpretar corretamente os números e evitar comparações inadequadas.
Diagnóstico e acesso continuam decisivos
O estudo reforça a necessidade de reconhecer precocemente os sinais de agravamento da dengue e garantir que pacientes com maior risco sejam avaliados e encaminhados com agilidade. Idosos e pessoas com doenças crônicas merecem atenção especial, conforme os protocolos de atendimento.
A prevenção também continua fundamental. Eliminar recipientes que acumulam água, controlar possíveis criadouros do mosquito e procurar atendimento ao surgirem sintomas são medidas que ajudam a reduzir riscos individuais e coletivos.
Os resultados não explicam todas as causas das diferenças entre os hospitais, mas mostram que a gravidade dos casos nas UTIs merece acompanhamento. Para os pesquisadores, novas análises são necessárias para identificar quais fatores clínicos e organizacionais podem ser modificados e melhorar os resultados do tratamento.