O Outubro Rosa costuma colocar a prevenção do câncer de mama no centro do debate. Em 2026, porém, uma pesquisa nacional mostra que ainda existe uma etapa anterior ao cuidado: saber exatamente o que fazer. A parcela de mulheres que afirma não conhecer as formas de prevenção aumentou de 25% em 2024 para 29% neste ano.
O levantamento “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, realizado pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus, ouviu 1.038 mulheres dentro de uma amostra nacional de 2.015 pessoas. Os resultados mostram que informação e comportamento caminham juntos.
Entre as mulheres que dizem conhecer as formas de prevenção, 80% afirmam já ter realizado o autoexame das mamas por toque. Entre aquelas que não conhecem os métodos, o índice cai para 30%. A diferença também aparece na mamografia: 65% entre as mais informadas contra 35% entre as que dizem desconhecer as formas de prevenção.
Informação é o que separa a mulher que se cuida da que não se cuida. | Dra. Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center

Conhecer muda o comportamento
A diferença encontrada pela pesquisa sugere que informação não é apenas um elemento educativo. Ela pode interferir diretamente na decisão de procurar atendimento, observar o próprio corpo e realizar exames.
Entre as mulheres que conhecem os métodos preventivos, somente 12% nunca fizeram autoexame ou mamografia. Entre as que afirmam não conhecer as formas de prevenção, esse percentual chega a 55%. O contraste mostra como conhecimento e prática aparecem fortemente relacionados no levantamento.
O problema, entretanto, não está distribuído igualmente. O conhecimento sobre prevenção varia de 49% entre mulheres com renda familiar de até um salário mínimo para 79% entre aquelas com renda superior a cinco salários. O acesso também produz diferença entre SUS e rede privada.

Prevenção não é a mesma coisa que diagnóstico precoce
A pesquisa também ajuda a separar dois conceitos que muitas vezes aparecem misturados. Hábitos de vida, como manter peso adequado, praticar atividade física e evitar álcool e tabaco, fazem parte da prevenção. Já o diagnóstico precoce depende do acompanhamento médico e dos exames indicados para cada mulher.
Essa distinção importa porque campanhas de conscientização podem perder força quando a mensagem se resume a uma única recomendação. O cuidado envolve informação, hábitos, autoconhecimento e acesso ao sistema de saúde.
Para Fabiana Makdissi, prevenção e diagnóstico precoce são necessidades diferentes, mas igualmente importantes. A especialista destaca que o diagnóstico em estágios iniciais está associado a melhores resultados no tratamento. No levantamento do A.C.Camargo, a sobrevida global em cinco anos chega a 96% entre pacientes diagnosticadas em estádio I.
Quando informação vira parte do cuidado
O dado mais relevante do levantamento talvez não seja apenas o percentual de mulheres que desconhecem a prevenção, mas o que acontece depois desse desconhecimento. A pesquisa mostra que as diferenças de informação aparecem também nas práticas concretas de cuidado.
Isso coloca a comunicação de saúde diante de um desafio maior: falar mais não significa necessariamente informar melhor. É preciso produzir mensagens compreensíveis, acessíveis e capazes de orientar decisões, especialmente para quem enfrenta maiores barreiras de renda e acesso.
O Outubro Rosa, portanto, pode ser lido para além da campanha. Em 2026, a pesquisa mostra que melhorar o conhecimento sobre prevenção continua sendo uma forma de ampliar o cuidado. E, para uma parcela significativa das brasileiras, saber o que fazer ainda é parte do caminho que precisa ser construído.