Rony Meisler não começou sua trajetória empresarial no mercado de moda. Engenheiro de formação, trabalhava na Accenture quando uma situação aparentemente banal chamou sua atenção: cinco homens na academia usavam praticamente a mesma bermuda. A repetição levantou uma pergunta simples entre ele e o amigo Fernando Sigal: havia poucas opções para aquele consumidor?
A dupla decidiu testar a hipótese antes de construir uma grande operação. Segundo Meisler, os primeiros produtos foram desenvolvidos com capital próprio e vendidos diretamente para conhecidos, na academia, na faculdade e de porta em porta. A primeira produção foi pequena, mas serviu para responder à pergunta essencial: alguém estava disposto a comprar?
A experiência deu origem à Reserva, fundada em 2006. O negócio começou com bermudas e camisetas e, ao longo dos anos, passou a combinar varejo, franquias, conteúdo e uma estratégia de marca centrada na experiência do consumidor. Em 2020, o Grupo Reserva foi incorporado à Arezzo&Co, dando origem à AR&CO.

Inovação é a mentalidade que foca na jornada do cliente para pensar o produto. | Rony Meisler, em entrevista ao Mercado&Consumo.
O mercado apareceu antes do produto
A história da Reserva ilustra uma lógica conhecida no empreendedorismo: observar o comportamento antes de decidir o que vender. Em vez de partir de uma coleção pronta para depois procurar compradores, os sócios começaram com uma situação concreta e construíram um teste em torno dela.
Essa lógica se aproxima das recomendações do Sebrae para validação de ideias. A entidade orienta empreendedores a identificar o público, pesquisar o mercado, testar protótipos e analisar o feedback antes de comprometer recursos maiores.
Michael Porter, professor da Harvard Business School, coloca outro elemento nessa equação: estratégia envolve escolhas e renúncias. Para ele, a essência da estratégia está justamente em decidir o que a empresa não fará..

Da roupa à experiência de marca
A Reserva ampliou a proposta inicial ao transformar a marca em uma experiência. O posicionamento deixou de depender apenas da peça de roupa e passou a envolver linguagem, comunicação, relacionamento e propósito.
Em entrevista à Forbes, Meisler explicou que a marca deveria estar presente nos diferentes pontos de contato com o consumidor e que branding precisava nascer dos problemas que a empresa se propunha a resolver.
A expansão também trouxe escala. O grupo passou a operar com lojas próprias, franquias e presença em multimarcas. Segundo a Azzas 2154, o Grupo Reserva chegou à fusão com a Arezzo&Co com um portfólio que incluía Reserva, Reserva Mini, Oficina, Reserva Ink, Reserva Go, Reversa e Simples.
Quando observar vira vantagem competitiva
A história de Meisler mostra que uma oportunidade de negócio nem sempre aparece em pesquisas complexas. Às vezes, começa em uma situação cotidiana que alguém decide olhar com mais atenção.
O diferencial está em transformar essa observação em hipótese, testar a resposta do mercado e construir um modelo capaz de crescer. Foi o caminho percorrido pela Reserva desde as primeiras vendas diretas até a formação de um grupo integrado a uma das maiores companhias brasileiras de moda.
Mais do que uma história sobre roupas, a trajetória da Reserva é um exemplo de como comportamento do consumidor, posicionamento e experimentação podem se combinar para criar um negócio. A bermuda foi o ponto de partida. A leitura do cliente foi o ativo que veio depois.