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Na Semco, funcionários podiam definir o próprio salário. Mas havia uma regra: conhecer a conta
Negócios
06.10.2026

Na Semco, funcionários podiam definir o próprio salário. Mas havia uma regra: conhecer a conta

O modelo de Ricardo Semler combinava autonomia com transparência financeira para transformar decisões salariais em responsabilidade compartilhada.

Uma das experiências mais conhecidas da trajetória de Ricardo Semler na Semco parecia contrariar uma regra básica da gestão: os funcionários podiam participar da definição do próprio salário. A proposta levantava uma pergunta inevitável: se cada pessoa pudesse escolher quanto receber, quem impediria que todos pedissem o máximo?

A resposta estava justamente na parte menos chamativa do modelo. A autonomia não era oferecida no escuro. Os trabalhadores tinham acesso aos números da empresa e a referências de mercado e da própria organização para tomar a decisão. Na Semco, mais de 150 profissionais de gestão chegaram a definir seus próprios salários e bônus, segundo artigo de Semler publicado pela Harvard Business Review.

A lógica era transformar remuneração em uma decisão econômica, não apenas em uma negociação individual. O carrossel destaca três parâmetros: quanto os colegas recebiam, quanto aquela pessoa poderia ganhar em outra empresa e quanto a própria Semco lucrava. O orçamento também era revisto periodicamente, criando um limite concreto para as escolhas.

Você deve tratar as pessoas como adultos. | Ricardo Semler.

Liberdade só funciona quando existe informação

que tornava o modelo da Semco diferente não era apenas permitir que funcionários escolhessem salários. Era oferecer informação suficiente para que essa liberdade pudesse ser exercida com responsabilidade.

A transparência financeira era parte essencial do sistema. Em artigo publicado na Harvard Business Review, Semler relatou que os funcionários tinham acesso aos livros da companhia e que as decisões eram distribuídas entre as equipes. A gestão incluía autonomia sobre horários, participação em decisões e definição de salários e bônus.

A experiência também ajuda a compreender um princípio contemporâneo de gestão. Para a professora Amy Edmondson, da Harvard Business School, ambientes em que as pessoas conseguem falar com franqueza favorecem aprendizado e desempenho, mas isso exige clareza e responsabilidade, não ausência de cobrança.

Transparência não elimina a cobrança. Ela muda quem participa dela

O modelo de Semler não significava que qualquer pedido salarial seria automaticamente aceito. O próprio histórico da Semco mostra que as decisões estavam relacionadas ao orçamento e à capacidade econômica das equipes e registros indicam que cerca de 80% a 85% dos valores propostos ficaram próximos do que a empresa esperava.

Esse desenho muda a conversa sobre aumentos. Em uma empresa tradicional, o funcionário apresenta um pedido e espera que o gestor decida. No modelo de Semler, o profissional recebe parte das informações que normalmente ficam restritas à gestão e precisa justificar sua própria posição dentro desse cenário.

A ideia não é copiar literalmente a Semco. É entender o princípio por trás dela: autonomia sem contexto vira palpite; autonomia com informação pode virar responsabilidade. Para uma empresa que deseja delegar decisões, talvez a pergunta mais importante não seja “posso deixar meu funcionário escolher?”, mas “ele tem dados suficientes para escolher bem?”.

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