A XP começou em 2001 com uma estrutura enxuta e pouco dinheiro em caixa. Nos primeiros meses, a dificuldade não era apenas conseguir investidores, mas convencer pessoas que ainda não entendiam como funcionava o mercado financeiro.
A solução foi mudar a ordem da operação. Em vez de começar tentando vender produtos financeiros, os sócios passaram a ensinar. Um primeiro curso reuniu 30 alunos e gerou receita suficiente para aliviar a pressão sobre o caixa.
O que começou como uma necessidade financeira acabou se tornando uma estratégia comercial. A empresa percebeu que, em um mercado complexo, educação poderia funcionar como etapa anterior à venda.

Para conseguir clientes, era preciso ensiná-los a investir. | Guilherme Benchimol, fundador da XP, em entrevista à Exame.
Quando a educação vira parte do funil
A estratégia da XP invertia uma lógica tradicional de vendas. Em vez de tentar convencer imediatamente alguém a comprar um produto, a empresa criou uma etapa para reduzir a assimetria de conhecimento.
O resultado foi percebido rapidamente. Segundo Benchimol, uma aula informal reuniu 20 pessoas e 18 delas se tornaram clientes no dia seguinte. Depois, um curso de fim de semana reuniu 30 alunos e arrecadou R$ 9 mil.
A estratégia também está alinhada a uma questão reconhecida pelo Banco Central: conhecimento financeiro ajuda consumidores a comparar e escolher produtos financeiros mais adequados às suas necessidades.

Ensinar também pode ser estratégia de aquisição
A lição ultrapassa o mercado financeiro. Produtos complexos geralmente exigem que o consumidor compreenda primeiro o problema, a categoria e a solução antes de tomar uma decisão.
Nesse cenário, conteúdo deixa de ser apenas comunicação institucional. Ele passa a cumprir uma função comercial: preparar o consumidor para reconhecer valor.
A própria XP consolidou a educação como parte importante da estratégia de crescimento. Décadas depois, a empresa mantém uma frente de educação financeira e empreendedorismo, enquanto o Banco Central continua tratando informação clara como instrumento para decisões financeiras mais conscientes.
O caso mostra que, às vezes, o gargalo de vendas não está no produto. Está no conhecimento necessário para que o cliente consiga escolhê-lo.